publicado em 30 de junho de 2021

Motivação e Projeto de Vida: como mobilizar competências para trilhar seu propósito

Entenda como a motivação perpassa as ações do componente Projeto de Vida e de como essa ação pode colaborar com a aprendizagem

O que você quer ser quando crescer?”. Praticamente todo mundo já ouviu essa pergunta, que está presente em conversas, em atividades escolares e até mesmo em músicas e histórias infantis. A pergunta simples carrega consigo a oportunidade de conhecer sonhos e preferências de crianças e de adolescentes, entendendo de que maneira eles percebem o mundo e o lugar que ocupam – e que gostariam de ocupar – nele.

Se essa pergunta é tão comum, é lógico pensar no que nós, adultos, fazemos com a resposta – o que falamos para uma criança que diz que ser engenheira ou astronauta? Esse espaço aberto para diálogo é um ponto crucial para entender os gostos e objetivos da criança, ainda que considerada a perspectiva infantil, e que não pode ser deixado de lado na educação.

Com a publicação da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), a apresentação das dez competências gerais trouxe consigo aspectos cognitivos e socioemocionais, criando espaço para o desenvolvimento de currículos escolares que valorizem a individualidade do estudante e abra oportunidades para o desenvolvimento em seus campos de interesse. Para aproveitar ao máximo essa oportunidade, é igualmente necessário estimular os estudantes a organizar efetivamente as suas preferências e vontades, além de explorar os seus objetivos de vida, na escola e para além dela, e criar práticas que permitam esse processo.

É nesse sentido que a rede estadual paulista implementou o componente Projeto de Vida para estudantes do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e Ensino Médio do Estado de São Paulo, abrindo um espaço específico e estruturado, entre outras coisas, para discutir esse tipo de questões com os estudantes. De acordo com Cássia Moraes, da Secretaria de Educação de São Paulo (SEDUC-SP), o primeiro momento do componente gira em torno do acolhimento direcionado para abrir um espaço de respeito, escuta e diálogo entre professores e estudante. A partir disso, o educador consegue ouvir o que os estudantes pensam e sentem, apoiando-os em um processo de reflexão e de autoconhecimento.

Esse mergulho em suas próprias impressões e pensamentos também é de grande importância para o desenvolvimento da motivação do estudante. Vale destacar que a motivação diz respeito a um conjunto de características que mudam de pessoa para pessoa e com o passar do tempo, podendo ser desenvolvida a partir de intervenções direcionadas. Sob essa perspectiva, a aprendizagem tem como primeira etapa a descoberta de interesses e motivos que levam alguém a querer saber de algo – é aí que o autoconhecimento pode ajudar.

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Tomando como exemplo a criança ou adolescente que afirmar ter como sonho ser astronauta, o Projeto de Vida seria o espaço em que pode ter conhecimento sobre os aspectos que a profissão requer e que estão acessíveis para ela em sua idade e percurso escolar. Cognitivamente, ela precisaria, entre outras coisas, estudar ciências e ter boas habilidades analíticas. Do ponto de vista socioemocional, seria preciso desenvolver as competências de determinação para trilhar esse caminho e curiosidade para aprender, por exemplo. A partir disso, ela pode identificar em seu cotidiano e vivência escolar as oportunidades em que essas competências podem ser desenvolvidas, engajando-se com essas atividades e dedicando-se a elas.

Além da orientação para um objetivo específico, a motivação também pode ser intrínseca, que é aquela que impulsiona a fazer algo por si mesmo – como estudar astronomia e ciências somente por achar o conteúdo interessante e não necessariamente porque quer seguir esse rumo profissional. Cientificamente, a motivação é composta por certos elementos e um deles é a autocrença – aquilo que o estudante pensa sobre si mesmo e que permite que ele entenda o seu protagonismo na aprendizagem. O autoconhecimento é fundamental para o desenvolvimento desse aspecto, já que ele oferece mais clareza sobre potencialidades individuais e sobre os caminhos que precisarão ser percorridos para atingir um objetivo com os recursos que estão disponíveis. Assim, fica mais fácil definir onde se quer chegar e as etapas desse caminho.

“Os alunos que fazem o Projeto de Vida criam seu propósito, a partir de pequenas atividades em que eles são protagonistas, são agentes da educação. Ele é viável desde que tenhamos determinação, organização, e isso podemos trabalhar com os estudantes”, afirma Cássia. Para ela, o componente é fundamental para que os estudantes tenham uma visão objetiva do percurso que têm que seguir para seus objetivos e, assim, eles têm mais autonomia em seu processo de aprendizagem.

Abertura ao novo

Falar de método científico para um adolescente que quer sonha em viver grandes aventuras relacionadas ao universo pode ser um pouco diferente do que vemos no cinema ou temos em nosso imaginário. Porém, esses aspectos andam lado a lado e conhecê-los é um ponto crucial para ter uma visão realista e palpável daquilo que realmente queremos, descobrindo formas de conhecimento que nem tínhamos ideia.

A macrocompetência de abertura ao novo está relacionada com a motivação na medida em que favorece à adesão e o engajamento do estudante com novos conceitos, caminhos e possibilidades. Caminho se conhece andando – a frase da canção de Chico César, que se tornou popular nos últimos meses e fez sucesso entre os mais jovens em buscas na internet, é um singelo conselho para abrir os olhos para as inúmeras possibilidades que se abrem quando se está aberto ao que o novo pode oferecer.

Assim como a abertura ao novo levou o cantor às paradas de sucesso por uma geração que pouco o conhecia, ela também levou uma estudante paulista que sonhava em trabalhar com astronomia a descobrir um asteroide e ter seu nome reconhecido pela NASA. É essa a história de Laura Dias, que se engajou com oportunidades de iniciação científica e se tornou conhecida por seu trabalho relacionado à observação e catalogação de corpos celestes.

A motivação de Laura Dias

O contato da estudante com a ciência surgiu enquanto ela cursava o componente de Projeto de Vida, que abriu as portas para o engajamento com a atividade e que gerou impactos positivos para o presente e para a futuro de Laura. “O Projeto de Vida não está ligado só com a escola, ele é para a vida toda. Ele perpassa a educação básica e deve dar autonomia para os estudantes fazerem suas escolhas. Precisamos saber falar com estudantes e saber que eles são a melhor potência que a gente tem e que a escola transforma vidas”, comenta Cássia.

Motivação na prática pedagógica: inspirações para educadores

A implementação do Projeto de Vida nas escolas é uma das maneiras como as políticas públicas podem incorporar a motivação na educação do país para gerar resultados em escala. Desenvolvendo a motivação por meio das competências socioemocionais, damos um importante passo rumo à formação integral dos estudantes e à preparação para lidar com os desafios e descobertas que vão aparecer no caminho que precisam percorrer para conseguir, enfim, se tornar aquilo que eles próprios sonham e querem ser quando crescer.