publicado em 7 de julho de 2021

Evidências científicas sobre motivação: como elas podem contribuir para a realidade escolar brasileira?

O que nos motiva a aprender e como podemos desenvolver habilidades relacionadas à motivação? As perspectivas e modelos formais sobre motivação, assim como suas possibilidades empíricas, são temas de pesquisas no Brasil e no mundo. No caso do Instituto Ayrton Senna, a investigação da temática acontece no Laboratório de Ciências para Educação, o eduLab21, que conduz pesquisas sobre a relação da motivação com componentes socioemocionais, bem como sua relação com resultados de vida, com interesses profissionais e saúde mental.

Essas pesquisas e estudos levaram à realização do evento “Seminário Internacional - Motivação: evidências para promover a aprendizagem”, no dia 15 de junho de 2021. Um dos convidados foi o pesquisador Kevin McGrew, referência mundial em pesquisas sobre motivação e um dos consultores do eduLab21 sobre a temática, que vem sendo investigada de maneira pioneira no país devido à realização combinada de pesquisas teóricas e empíricas. Outros pesquisadores do eduLab21 e de redes parceiras também estiveram presentes para apresentar possibilidades metodológicas e os resultados de suas pesquisas.

 

As pesquisas do eduLab21: de onde vêm as evidências sobre motivação

As pesquisas do eduLab21 sobre motivação visam contribuir com um olhar científico sobre a temática. Para o pesquisador Nelson Hauck, é inegável a relevância das variáveis socioemocionais e motivacionais e a construção de um olhar técnico e sistemático sobre as competências associadas a elas. “Os professores sabem que as competências socioemocionais são importantes e que boa parte das coisas que acontecem em sala de aula têm origem em dificuldades socioemocionais. Então a novidade sobre a temática é esse olhar científico, crítico e abrangente”, afirma.

Para dar ainda mais subsídios a esse olhar criterioso na construção do conhecimento, o eduLab21 também tem investido esforços para identificar a necessidade e os desafios de medir, avaliar e monitorar competências socioemocionais e motivacionais. “As pessoas têm uma experiência cotidiana qualitativa e não quantitativa com esses aspectos. É aí que entra a psicometria, que busca, entre outras coisas, desenvolver instrumentos cuidadosamente padronizados e que possam coleta informações psicológica válida”, destaca Hauck. Quando feita em base em instrumentos elaborados com atenção à precisão e validade, uma avaliação sobre essas características é uma forte aliada do desenvolvimento, pois fornece dados menos subjetivos sobre o que é preciso fortalecer em cada pessoa, ou em um conjunto de pessoas. A partir de evidências como essa, é possível realizar um planejamento mais focado e um trabalho mais intencional naquilo que é realmente necessário.

A construção de instrumentos psicometricamente válidos envolve uma série de etapas e aspectos. O primeiro deles é a definição de uma taxonomia que seja compreensível e que atenda aos objetivos da análise. É por isso que o eduLab21 estuda diversos modelos de competências e a maneira como elas se agrupam em macrocompetências. O modelo Senna de competências socioemocionais de estudantes, utilizado na criação de instrumentos de avaliação do Instituto, é fruto de um extenso caminho metodológico e investigativo e, até hoje, envolve ações constantes como a análise de outros modelos e da observação das semelhanças e diferenças entre eles. “Embora sejam modelos diferentes e competências diferentes, podemos na prática estar falando das mesmas coisas- ou não. O que estamos fazendo é verificar em que medida esses modelos são parecidos ou diferentes na prática, o que analisamos usando técnicas da psicometria” afirma Rodrigo Travitski, pesquisador do eduLab21. Também é um foco de pesquisa a relação desse modelo com outros elementos – como a motivação.

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Em cenários de muitos modelos conceituais voltados para a mesma temática, mas com abordagens diferentes, como é o caso de competências e características pessoais, o olhar para os instrumentos de avaliação precisa considerar ainda um problema científico conhecido como falácias jingle-jangle, que diz respeito às questões que surgem da utilização de conceitos semelhantes e que têm nomes distintos, ou o inverso – nomes semelhantes que podem gerar a impressão de que suas definições também são parecidas. “As falácias jingle-jangle remetem aos ruídos presentes nas definições e nos conceitos que usamos nas avaliações e, por isso, precisamos nos preocupar se não estamos cometendo esse tipo de erro. Estamos falando em avaliar muitos tipos de construtos por muitos instrumentos diferentes construídos a partir de referenciais teóricos também distintos”, detalha Alexandre Peres, pesquisador do eduLab21.

Essa relação também acontece em pesquisas empíricas, que podem confirmar ou refutar hipóteses e possibilidades apresentadas de forma teórica. Por isso, uma das linhas de estudos do eduLab21 também gira em torno da identificação, na prática, de relações entre as competências socioemocionais e os componentes do modelo teórico de motivação. Após a aplicação de instrumentos que monitoram competências socioemocionais e motivacionais, já foi possível identificar, em conjunto com o próprio pesquisador McGrew, que as macrocompetências de autogestão e abertura ao novo estão mais associadas à motivação. A descoberta foi posterior à revisão do modelo atual e, por isso, não está inclusa.

 “Observamos empiricamente que a abertura ao novo se relaciona mais fortemente com a motivação intrínseca, sobretudo nas competências a curiosidade para aprender e o interesse artístico. Também observamos que a autogestão, em especial no aspecto de determinação, está associada tanto à motivação quanto à volição em seu aspecto de autorregulação. Quando olhamos para a relação entre a autorregulação e a autogestão, podemos olhar justamente para as estratégias de conseguir manter um ambiente que propicie aquele estudo”, explica a Gerente de Projetos do eduLab21 pesquisadora Ana Carolina Zuanazzi. Ela ainda destaca que as análises identificaram mais uma macrocompetência relevante: A resiliência emocional demonstrou forte relação com a autorregulação. “Sobretudo a autorregulação de estratégias emocionais e autoestima, porque para o aluno se motive a aprender ele deve ter crenças de autoestima e eficácia, entre outras”, aponta.

Um ponto importante da motivação diz respeito aos aspectos que provocam a motivação, sendo que um deles é o campo dos interesses – interessar-se por alguma coisa é um componente importante para que o estudante se torne motivado a se envolver em uma aprendizagem. Esse é justamente o foco de outro eixo de pesquisa do eduLab21, que busca analisar a relação entre esses interesses e os interesses profissionais dos estudantes. “Os interesses são definidos de preferência, aversão ou indiferença em relação frente a atividades acadêmicas e profissionais, além dos ambientes onde essas atividades podem ser desempenhadas e resultados esperados com as atividades”, afirma o pesquisador Rodolfo Ambiel.

Quando os interesses profissionais dos estudantes são ouvidos, os educadores podem direcioná-los rumo a temas que são relevantes para eles e, assim, engajá-los com mais facilidade em um aprendizado motivado. Além disso, em uma utilização mais ampla, os dados podem gerar insumos para a implementação de ações mais alinhadas com os interesses dos estudantes e até mesmo para promover novos interesses.

A partir de resultados da aplicação de instrumentos de monitoramento de interesses profissionais, os pesquisadores buscam entender a conexão que pode ser feita entre certos perfis de interesse e o maior ou menor desenvolvimento em certas competências, o que pode ser utilizado como insumo para estimular ações direcionadas para trabalhar certos tipos de interesse. Porém, é preciso considerar que esses padrões não são estáticos. “Os interesses não são deterministas e sim algo que passa pela aprendizagem e pela motivação e, principalmente, pelo processo de desenvolvimento. Saber o que interessa é importante também para saber o que você precisa desenvolver em aspectos socioemocionais, cognitivos, motivacionais e volitivos”, aponta o pesquisador Felipe Valentini.

Dados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) mostram que 29% dos estudantes brasileiros têm baixo rendimento devido à ausência de motivação e que, mesmo em situações socioeconômicas variadas, a motivação ajuda a reduzir os riscos de evasão e abandono escolar. Com base nessa e em todas as evidências apresentadas – e todas mais que estão por vir do trabalho do eduLab21 e pesquisadores associados– é inegável o impacto da motivação sobre a aprendizagem. Pensar em possibilidades pedagógicas e políticas públicas que incluam o desenvolvimento de aspectos relacionados com a motivação é um importante passo para educação brasileira. Quando se pensa no contexto desafiador que caracteriza o século 21 e, especificamente no cenário causado pela pandemia, pelo isolamento social e pelo ensino remoto, a motivação pode ser a peça que faltava para gerar os impactos necessários para recuperar a aprendizagem e minimizar os riscos de evasão das escolas.