Quando falamos de alfabetização integral estamos nos referindo a uma proposta de apropriação do sistema de escrita alfabético em conjunto com a integração das áreas de conhecimento a partir de múltiplas linguagens e com o desenvolvimento das competências socioemocionais. Essas linguagens, como a matemática, a científica, a digital, a corporal e a artística dão suporte para o desenvolvimento pleno dos estudantes.





Múltiplas Linguagens
“Do ponto de vista da educação integral, alfabetizar não é só transmitir as regras da língua materna e da matemática, mas sim ensinar à criança as múltiplas linguagens requeridas pelo mundo real ao longo de sua vida.”

Essa abordagem, que o Instituto Ayrton Senna dá o nome de alfabetização 360°, olha o estudante em todas as suas dimensões (intelectual, física e socioemocional). A proposta leva para a formação prática do professor uma matriz de competências socioemocionais, para que ele atue em sala de aula articulando práticas de educação integral ao processo de alfabetização.

A gente forma alunos para a vida, para o mundo!

“Não adianta hoje a gente falar que nós entramos na porta da nossa escola e as nossas questões emocionais ficam de fora. Então, como trabalhar esse socioemocional, como ensinar os alunos a trilhar o caminho sociedade e emoções? Durante as atividades integradoras, quando se formam os grupos, um é diferente do outro, um pensa diferente do outro. Nesse momento conversamos muito sobre o respeito: a opinião do outro não é a minha, mas ele necessita ser escutado e respeitado. O professor auxilia o aluno no conhecimento hoje, mas o aluno não vai ficar dentro da escola a vida inteira. A gente forma alunos para a vida, para o mundo.”

Andréa de Souza Rocha, professora do 3º ano da Escola Sebastião Vayego de Carvalho, Ribeirão Pires/SP



A linguagem é entendida como um sistema de sinais para codificação e decodificação de informações, e essa aprendizagem é a base da alfabetização. A linguagem também pode ser entendida como um mecanismo cognitivo que permite ao ser humano aprender e usar sistemas complexos de comunicação. Existem diversos tipos de linguagens: oral, escrita, digital, arquitetônica, matemática, científica, o braile, linguagem de sinais, a mímica, os gestos, a fotografia, a corporal, os emoticons etc.

 

No processo de alfabetização, quando se inclui o trabalho com múltiplas linguagens, torna-se possível realizar a integração das áreas do conhecimento ao mesmo tempo em que se promove atividades como recursos para o desenvolvimento de habilidades específicas da alfabetização em Língua Portuguesa. Essas atividades dão significado ao processo de alfabetização, uma vez que integram o que acontece na sala de aula com o que acontece no mundo, e superam a compartimentalização dos conhecimentos.

 

O trabalho por meio de disciplinas paralelas e desconectadas entre si, como é comum em boa parte do trabalho escolar mais tradicional, amplia a distância entre o vivido dentro da escola e fora dela, e a aprendizagem acaba por não ter muito significado para o aluno. Manter o aluno engajado em seu próprio percurso de aprendizagem implica em mudanças no ensinar. Uma das formas de se promover essas mudanças é a realização de um planejamento pedagógico em torno de eixos temáticos, com a integração entre conteúdos e linguagens das diferentes áreas do conhecimento, bem como das competências socioemocionais.

 

A partir desse planejamento e do uso de metodologias diversificadas, o estudo que envolve o contexto real em que a criança está inserida, ou que lhe permite obter explicações para fenômenos que despertam sua curiosidade natural, confere significado ao aprendizado na medida em que pode ser aplicado na prática e responder aos desafios de seu cotidiano.





Linguagem Materna
“A criança já faz uso de sua língua materna desde os primeiros anos de vida, e a escola deve ter como finalidade a ampliação dessa competência linguística logo no 1º ano do Ensino Fundamental.”

Sueli Amaral, especialista em alfabetização



Múltiplas Linguagens



Adotamos o termo linguagens para expressar não só os usos sociais da escrita e da matemática, mas também de outras áreas do conhecimento como Ciências da Natureza, Ciências Humanas e da cultura digital. Essa posição está alinhada à BNCC, que em sua proposta de Competências Gerais da Educação Básica propõe:

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4. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo.

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Na era da Informação e da hiperconectividade, é essencial estar alfabetizado para ler e interpretar textos, imagens e sons em diferentes suportes. Uma publicação na Internet, por exemplo, pode ter várias linguagens. Quando isso acontece, o conteúdo é caracterizado como multimodal, porque o seu sentido é resultado da combinação e articulação entre diferentes modalidades de linguagem (musical, verbal, gestual, imagética ou pictórica, por exemplo) ou diferentes sistemas semióticos que o constituem como parte significativa das comunicações (semiótica - estudo de signos e símbolos como diagramas, sinais, emblemas etc.). É por causa disso que a leitura desses conteúdos pode requerer que o sujeito mobilize linguagens diversas para compreender o seu sentido.

 

Podemos afirmar que no uso da linguagem oral também é fácil observar a multimodalidade da linguagem pelos gestos, olhares e movimentos corporais (componentes da linguagem corporal) que interferem na produção de sentidos do texto que está sendo produzido. Já na linguagem escrita, ela se manifesta por meio das imagens de palavras, do uso de cores, infográficos, imagens que podem entrar na composição dos textos, especialmente nos meios digitais (componentes da linguagem artística).

 

A linguagem científica traz novas palavras e símbolos que são incorporados pelos alunos ao desenvolverem atividades práticas de Ciências e fazerem o registro dos processos e resultados obtidos, o que gera significados ao processo de alfabetização ao mesmo tempo em que desperta competências como curiosidade, criatividade, leitura e interpretação do mundo, pensamento crítico e tomadas de decisão.

 

Possibilitar ao aluno do Ciclo de Alfabetização o contato com diferentes práticas do uso da leitura e da escrita, em diferentes meios, nos mais diversos textos e gêneros passam também por apoiá-lo a lidar com os meios de obtenção, produção e divulgação de informações de maneira ética e criteriosa, em especial os meios típicos do mundo digital, como as redes sociais (componentes da linguagem digital).

 

A seguir, detalhamos os conceitos e práticas para a articulação de cada uma dessas linguagens ao processo de alfabetização.

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Linguagem científica



Na perspectiva da educação integral, o trabalho com a linguagem científica favorece a aproximação gradativa aos principais processos, práticas e procedimentos do pensamento científico, a fim de que crianças tenham um novo olhar sobre o mundo que as cerca. Ao mesmo tempo, é um caminho para fazer escolhas e intervenções pautadas nos princípios da sustentabilidade e do bem comum.

 

Quanto mais intensas forem as relações entre a alfabetização e o modelo de pensamento científico, maior será o enriquecimento para a formação integral e crítica da criança.





Linguagem Científica
“O trabalho com a linguagem científica permite que o estudante aprenda a pensar, a tomar decisões, a fazer escolhas, a fazer relações entre causa e efeito. Tudo isso oportunizará que a criança esteja preparada para o mundo que ela encontrará daqui a alguns anos.”

Vera Cambrea, especialista em linguagem científica

Conhecer a linguagem científica oferece condições para o engajamento das pessoas no debate em torno dos assuntos da vida cotidiana e para o desenvolvimento de opiniões sobre os efeitos das inovações científicas, tecnológicas e os eventuais riscos acarretados por seu uso.

 

A linguagem científica, desenvolvida de forma integrada à alfabetização, contribui para despertar e valorizar a curiosidade dos alunos e favorece uma nova leitura de mundo. Quando uma pergunta é levantada na sala de aula, a busca por uma resposta move o desenvolvimento cognitivo dos alunos pela ampliação do conhecimento científico, ao mesmo tempo que amplia seu vocabulário.

 

O desafio dos professores está em propiciar um ensino que desperte o gosto pela participação e o desejo de aprender.

Por meio de experimentos, muitas vezes de simples execução, ou sequências didáticas elaboradas com esta finalidade, é possível engajar os estudantes, apresentar as etapas do pensamento científico, envolvê-los na formulação de hipóteses para explicar um fenômeno ou solucionar um desafio, na testagem das hipóteses para confirmação ou refutação da “teoria” desenvolvida pelos alunos, na comunicação de resultados, entre outras etapas.



Linguagem corporal



As relações de todas as pessoas com o mundo são intermediadas por suas vivências corporais, inclusive na escolarização – por exemplo, o frio na barriga ao ser chamado pela professora para responder uma pergunta, o coração acelerado pela alegria de acertar uma resposta, o incômodo físico causado por frustrações etc. Aprender algo também passa, assim, por corporificar o sentido das experiências escolares e, por isso, para promover a educação integral é essencial reconhecer a presença da linguagem corporal em todo o processo formativo. Nesta ótica, a concepção de corpo a relação de cada sujeito com o mundo.

 





Linguagem corporal
“A linguagem corporal faz parte em todas as nossas práticas sociais. Desde o momento em que você aprende a falar e aponta objetos ela está presente. É muito imbrincado o desenvolvimento da linguagem corporal e da linguagem verbal.”

Isabel Filgueiras, especialista em linguagem corporal

Nessa concepção, o corpo e o movimento, nas experiências de ensinar e aprender, devem ser explorados em vivências capazes de aguçar os cinco sentidos ao provocar novas sensações: sabor, cor, forma, cheiro, som, textura e movimento, envolvendo crianças e jovens na aprendizagem, de corpo inteiro.

 

Este entendimento apresenta dois grandes desafios para a escola do século 21. Por um lado, convida professores a “oxigenarem” suas práticas pedagógicas, suas metas de aprendizagem e também seus métodos de trabalho, a fim de explorarem, com intencionalidade, a linguagem corporal integrada às demais linguagens e aprendizagens escolares. Por outro, evoca a importância de garantir práticas que valorizem o acesso dos estudantes a aprendizagens específicas sobre a linguagem corporal, incluindo diferentes conteúdos da cultura corporal. Não se pode esquecer que a brincadeira livre com o corpo traz uma série de benefícios para o desenvolvimento humano e também precisa ser valorizada.



Linguagem digital



Uma das competências necessárias ao século 21 é a capacidade de lidar com as tecnologias de informação e comunicação. Isto significa não só utilizar e compreender como as tecnologias digitais funcionam, mas também ter a capacidade de criá-las. Mais que usar um software já existente com propósitos específicos, o ato de programar consiste em solucionar problemas – desde a realização de cálculos complexos à criação de jogos e animações –, utilizando o computador e sua capacidade de processamento de dados e informações como aliados.

 

O computador e o pensamento computacional, se utilizados apropriadamente, são terrenos férteis para o desenvolvimento da criatividade. O “pensamento computacional” pode ser entendido como uma estratégia para resolver desafios, explorando elementos como abstração e modularização do problema, análise de dados e informações e estruturação de passo a passo (algoritmos) para se chegar a uma solução.

 

Por tudo isso, o trabalho intencional com a linguagem digital leva ao aprimoramento do raciocínio lógico e desenvolve um conjunto de práticas aplicáveis não só em problemas da computação, mas também de outras áreas. Além disso, a BNCC traz o conceito de pensamento computacional associado à Matemática como estratégia para “traduzir” situações-problema da língua materna a outros formatos que podem ser entendidos por sistemas digitais.





Linguagem digital
“A tecnologia na educação ajuda a aprendizagem a ser mais prazerosa, mais criativa. O estudante deve aprender a navegar por caminhos onde ele possa avançar com sua criatividade, aprender sem ter um limite.”

Elaine Rocha, especialista em linguagem digital

Nesse sentido, a prática da programação se mostra como uma interessante estratégia de engajamento ao aluno do século 21, por meio da criação de artefatos digitais contextualizados ao seu cotidiano, para o desenvolvimento das diferentes competências. Importante ressaltar que o ensino do pensamento computacional não consiste na simples formação de profissionais para áreas relacionadas à computação. Apesar de ser também uma porta de entrada para elas, a capacidade de solucionar problemas de forma eficiente e estruturada possui impacto em diversas esferas da vida do estudante.



Linguagem matemática



Durante bastante tempo, tomou-se como base que aprender Matemática significava dominar uma linguagem repleta de símbolos e suas regras de uso ou, então, realizar as operações, aplicando-as em situações diversas. Ou seja, aprender a disciplina era ter domínio de técnicas numéricas e algébricas.

 

Mas a Matemática ampliou seu caráter instrumental e aplicado e disponibilizou características e linguagem próprias de pensar, investigar e descrever a realidade, para colaborar com as demais áreas do conhecimento.

 





Linguagem matemática
“A matemática deve ser ferramenta para entender o mundo e as outras linguagens. Ela deve ter significado para as crianças. É muito mais do que fazer um cálculo ou resolver problemas, mas utilizar o raciocínio matemático para poder atuar no mundo.”

Edda Curi, especialista em linguagem matemática

A BNCC orienta-se pelo pressuposto de que a aprendizagem em Matemática está intrinsecamente relacionada à compreensão, ou seja, à apreensão de significados dos objetos matemáticos, sem deixar de lado suas aplicações. Pode-se apoiar os estudantes a identificar as diversas oportunidades de utilização da Matemática na resolução de problemas, usando conceitos, procedimentos e resultados para obter soluções, além de interpretá-las. 

 

Nessa visão, ela instrumentaliza o indivíduo para que possa ler e interpretar a realidade e desenvolver habilidades e competências cognitivas e socioemocionais. Pode, inclusive, contribuir para desafios específico das fases de alfabetização, que exige dos estudantes: 

  • Resolver problemas

  • Realizar projetos

  • Planejar ações 

  • Tomar decisões

Isso acarreta consequências para o ensino, já que as aulas de Matemática devem desenvolver não apenas os procedimentos e conceitos específicos, como também privilegiar estratégias didáticas que incentivem o aluno a buscar informações, estabelecer possibilidades, testar hipóteses, tomar decisões, construir argumentações, dentre outras habilidades de pensamento.

Nessa concepção, cabe à escola promover situações de ensino e aprendizagem em Matemática, para que o estudante tenha clareza do papel da disciplina na sua vida,

bem como no desenvolvimento social, científico e tecnológico da humanidade. 



Linguagem artística



O ensino da arte é considerado um dos caminhos para estabelecer o desenvolvimento da sensibilidade, da percepção e da criatividade; é também a oportunidade para os alunos vivenciarem, identificarem e incorporarem valores. A partir da visão de educação integral, a arte contribui para que os alunos tenham interesse por aspectos essenciais da vida, sendo capazes de captar, relacionar e significar informações do mundo à sua volta. 





Linguagem artística
“Nós somos por natureza perguntadores, questionadores, exploradores. Na verdade, nós buscamos uma alfabetização permanente. A linguagem artística é a nuclear forma de procurar essa decifração do mundo.”

Hélio Braga, especialista em linguagem artística

Na BNCC, o componente curricular Arte está ligado às linguagens: artes visuais, dança, música e teatro, e deve contribuir para a interação do estudante com o mundo, favorecendo o respeito às diferenças e a troca entre diversas culturas.

 

O Ciclo de Alfabetização deve levar em consideração a transição dos alunos que vivenciaram os campos de experiência da Educação Infantil, dando continuidade em atividades de interações, jogos e brincadeiras. Para isso, é muito importante incentivar experiências de expressão criativa, de ludicidade e de vivências artísticas centradas nos interesses das crianças.



Articulação com o socioemocional



Como já mencionado neste guia, a perspectiva da educação integral tem como componente essencial a promoção do desenvolvimento socioemocional de forma articulada com o desenvolvimento cognitivo.

 

No Ciclo da Alfabetização, isso significa que é preciso identificar boas oportunidades para inserir as competências socioemocionais no próprio escopo do planejamento do ensino e de planos de aulas, abrindo espaço para explicitar aos estudantes o que são essas competências, como elas se manifestam e como toda criança pode desenvolve-las com apoio do educador. O uso de atividades que trabalham intencionalmente as competências socioemocionais, como foi demonstrado no capítulo 2, é um dos caminhos para isso. Estratégias pedagógicas como acolhimento, escuta ativa e demonstração de expectativa positiva para todo estudante são também boas escolhas para apoiar esse desenvolvimento.

 

Não se trata, no entanto, de construir “aulas socioemocionais”, nem de inserir, entre as disciplinas, momentos de mera exposição desses conceitos. É, antes de tudo, um convite para educadores integrarem essa dimensão ao conjunto amplo de vivências que proporciona ao estudante e suas turmas a partir do currículo. Quando feita com intencionalidade pedagógica e de forma consciente pelo professor, essa articulação é um caminho potente para o estudante se autoconhecer, desenvolver suas habilidades para lidar com as próprias emoções, com as outras pessoas e com o mundo ao redor. Como foi visto neste capítulo, todas as linguagens apresentadas possuem forte conexão com o desenvolvimento dessas competências, e são, portanto, terreno fértil para esse trabalho.

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