A cada dia, educadores e pesquisadores do mundo todo contribuem para aprimorar e renovar o embasamento sobre o conceito de educação integral e suas implicações na prática de professores em todas as etapas de ensino. Por isso, neste guia vamos apresentar qual a perspectiva desta concepção que orienta a construção e propostas educacionais do Instituto Ayrton Senna em um processo contínuo, sempre recebendo novos subsídios da vivência e reflexão de todos os atores da sociedade que acreditam que para ressignificar a educação é preciso ampliar seu propósito.





“Alfabetização vai muito além do domínio dos princípios alfabéticos ou da matemática; ela prepara uma criança para um mundo que se transforma a cada dia.”

Não é de hoje que o Brasil discute a questão da educação integral. Já no início do século 20 vários movimentos sociais e educadores, como a Escola Nova e Anísio Teixeira, defendiam a adoção de um tempo ampliado, em extensão e qualidade, para a então escola primária. A Constituição de 1988 fala de educação integral como fim para uma educação escolar robusta; a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996 determina a ampliação progressiva do tempo de permanência na escola, sinalizando para a necessidade de se oferecer progressivamente o Ensino Fundamental em jornada integral e de qualidade, assim como o Plano Nacional de Educação de 2014. E recentemente, em 2017, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) indica a construção intencional de processos educativos que promovam a educação integral.

Para o Instituto Ayrton Senna, educação integral ultrapassa a ideia de “educação em tempo integral”, na medida em que não se limita à ampliação da jornada escolar, mas pressupõe uma mudança de visão das redes de ensino sobre o processo educacional e sobre o próprio estudante. Essa visão considera as crianças e os jovens em sua inteireza e diversidade, situando-os no centro do processo educativo e propõe que a escola desenvolva com intencionalidade um conjunto de competências fundamentais para viver no século 21, que combina aspectos cognitivos e socioemocionais.

As competências socioemocionais, como empatia, foco, curiosidade, dentre outras, fortalecem a aprendizagem escolar e fazem diferença em características pessoais e interações sociais presentes e futuras dos estudantes, dando-lhes subsídios para seu desenvolvimento pleno.

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Emoção e razão juntas

É mais do que sabido pelos educadores que sentimentos como ansiedade, baixa autoestima ou desmotivação interferem no rendimento escolar. Isso acontece porque o desenvolvimento cognitivo não se dá isolado do socioemocional, ou seja, para aprender melhor um conteúdo, no campo da Matemática por exemplo, é preciso habilidades como persistência e determinação, ingredientes-chave do processo de resolução de problemas de qualquer natureza; para aprender melhor o componente de Língua Portuguesa trabalha, é essencial estimular nos estudantes a atitude de abertura ao novo.

Embora o desenvolvimento dessas características sempre tenha estado presente no cotidiano escolar, nem sempre foi abordado com o mesmo empenho que se investe nos aspectos cognitivos, como memória e raciocínio. Na educação integral, todos esses campos recebem o mesmo olhar, de forma articulada.

Quando essa perspectiva de educação integral consegue ser aplicada em propostas educacionais e currículos escolares, permite ampliar oportunidades e situações de aprendizagem significativas e conectadas com a vida do estudante, em cada uma das fases da Educação Básica. 

Para isso acontecer, alguns pontos são cruciais: os currículos devem possibilitar experiências e o uso de metodologias que integrem as áreas do conhecimento e diferentes linguagens; professores e gestores escolares devem buscar uma presença qualificada em suas atuações, orientando-se por uma expectativa positiva em relação ao aluno, que o inspire e o engaje no processo de aprendizagem; as redes de ensino precisam oferecer as condições necessárias para que alunos e educadores se sintam estimulados a imprimir em seu cotidiano essa visão de educação.

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Seis eixos para uma educação integral

Alfabetização integral

O processo de alfabetização vai muito além de tornar crianças e adultos capazes de decodificar símbolos, compreender os códigos e utilizá-los em situações práticas (ler, escrever e contar em determinados contextos). Do ponto de vista da educação integral, alfabetizar não é só transmitir as regras da língua materna e da matemática, mas sim ensinar à criança as múltiplas linguagens requeridas pelo mundo real ao longo de sua vida, como a linguagem corporal, a científica, a digital e a artística, bem como desenvolver competências socioemocionais.

Assim, quando falamos em alfabetização integral, nos referimos tanto à aquisição da proficiência leitora e escritora, fundamental para o estudo e compreensão das disciplinas de todas as áreas do conhecimento, quanto ao domínio de outras linguagens, com destaque para a dimensão socioemocional. Essa alfabetização permitirá ao aluno ampliar a compreensão sobre si mesmo e sobre os cuidados que deve ter para consigo, para com o outro e para com o seu entorno.

 

QUANTO MAIS INTERCÂMBIOS FOREM REALIZADOS ENTRE A ALFABETIZAÇÃO E OUTROS CONHECIMENTOS, ADVINDOS DE DIFERENTES DISCIPLINAS, MAIOR SERÁ O IMPACTO POSITIVO DESSE PERÍODO ESCOLAR PARA A FORMAÇÃO INTEGRAL DA CRIANÇA E DO JOVEM.

Tomando como pressuposto o fato de que a criança já faz uso de sua língua materna desde bebê, cabe à escola ampliar as competências linguísticas (escutar, falar, ler e escrever) e introduzir a criança na linguagem formal, para que ela possa participar ativamente em práticas sociais para além do espaço familiar ou do espaço social circunscrito aos seus pares.

Dado o potencial do domínio da língua escrita para ampliar o acesso ao mundo do saber, é importantíssimo que o processo de alfabetização traga para si a aquisição das demais linguagens e a compreensão sobre as emoções por meio de situações que permitam à criança vivenciar momentos de reflexão, questionamentos e escolhas, o que lhe que dará oportunidade para aprender a se comunicar com autonomia, se posicionar sobre assuntos do seu interesse, discutir e avaliar seus pontos de vista, respeitar e acolher os diferentes, ao mesmo tempo que se forma como um leitor crítico e um cidadão consciente e atuante em sua realidade.

 

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Socioemocionais: antídoto para a desigualdade

A alfabetização integral é um importante aliado da educação para superar lacunas e desigualdades sociais ao associar o socioemocional ao cognitivo, na medida em que o primeiro amplia significativamente a apreensão do segundo.

Um trabalho* coordenado por Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper, apontou que as competências socioemocionais podem funcionar como um antídoto para a desigualdade social brasileira. A partir dos dados do Inaf 2015, o estudo demonstra que, apesar das dificuldades, existe uma porção da população brasileira de baixo nível socioeconômico que consegue obter muitas realizações na vida, como alto grau de alfabetização, mais anos de escolaridade e remuneração mais elevada. Entre essas pessoas, foi constatado alto grau de ABERTURA PARA O NOVO, AUTOGESTÃO E AUTOCONCEITO.

Quatro pesquisadores ligados ao Instituto Ayrton Senna (Oliver P. John – Universidade de Berkeley/EUA; Ricardo Primi – Universidade São Francisco/Brasil; Filip De Fruyt – Universidade de Ghent/Bélgica; e Daniel Santos – USP-Ribeirão Preto/Brasil) também participaram do estudo, analisando e selecionando instrumentos que deram subsídio para o estudo de Paes de Barros, que faz a ligação entre as medidas socioemocionais, o desempenho no Inaf, o grau de escolaridade e a renda.

Paes de Barros é enfático: “O analfabetismo tem um impacto enorme no dia a dia, na hora que saíamos de casa e vamos fazer uma compra ou pegar um ônibus, mas também tem impacto de longa duração naquilo que somos capazes de realizar e alcançar quanto ao nosso projeto de vida. Quem não teve três anos de escolaridade possui resultados menos favoráveis nas realizações de vida aos 35 anos. Isso indica que toda a vez que a gente não alfabetiza um estudante na idade certa, há inúmeras consequências para a vida futura dele.”

*Pesquisa realizada em 2016, em parceria entre Instituto Ayrton Senna, Instituto Paulo Montenegro e Ação Educativa. Foram avaliadas três competências socioemocionais: abertura para o novo (capacidade de estar aberto para novos caminhos), autogestão (capacidade de persistir, comprometer-se e se organizar) e autoconceito (crença e confiança em si mesmo).

Veja a pesquisa completa aqui

O Instituto Ayrton Senna defende essa causa da alfabetização integral.

Para inspirar inovações educacionais articuladas com os desafios do nosso tempo é preciso refletir:

Como a escola e a rede de ensino podem criar oportunidades de formação para que estudantes mobilizem seu próprio potencial para fazer uma leitura do mundo ao seu redor, propor soluções sustentáveis aos desafios atuais e desenhar caminhos para novos futuros pessoais e coletivos?

 

Conheça a proposta educacional Alfabetização 360°.

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