O objetivo deste guia é contribuir com referências e inspirações que possibilitem pensar caminhos para estimular o desenvolvimento da criatividade e do pensamento crítico na Educação Básica. Longe de apresentar soluções prontas ou um “passo a passo” pré-determinado, este material pretende apoiar aqueles que se deparam com questionamentos como: O que são essas competências? Como se expressam? Quais situações podem ser mais propícias para estimular o desenvolvimento da criatividade e do pensamento crítico no ambiente escolar?

O ato de questionar, aliás, é uma das etapas de um pensamento criativo e crítico. Já parou para pensar quantas vezes no seu dia a dia você reflete sobre a validade de alguma informação ou opinião que lê nas redes sociais? Ou em quantos momentos você se pega imaginando que gostaria de fazer algo diferenciado para apresentar um projeto, que não seja do jeito que todo mundo sempre faz? Essas, por exemplo, são situações em que você pode exercer o seu potencial crítico e criativo.

Essenciais para uma vida com mais autonomia, essas competências podem ser desenvolvidas por qualquer pessoa e em qualquer idade, e contam muito com estímulos do contexto (família, escola, comunidade etc.) para isso. É possível, portanto, pensar em atividades mais ou menos promotoras da criatividade e do pensamento crítico e essa variação também é explicada pelo grau de conhecimento que um educador, pais ou cuidadores têm do assunto.

Por isso, neste guia serão compartilhados conteúdos com intuito de contribuir com quem começa a pensar nesse tema e também com aqueles que já se dedicam à formação integral de crianças, jovens e adultos. Aqui, formuladores de políticas públicas, gestores educacionais, coordenadores pedagógicos, professores, estudantes e qualquer pessoa interessada no assunto terão acesso a materiais conceituais, análises, reflexões e algumas sugestões práticas que podem apoiar iniciativas de educação integral – aquelas que articulam os conhecimentos e as competências para a vida, sejam socioemocionais, cognitivas, ou combinações entre elas.

Como toda contribuição, este é um material em constante aprimoramento e renovações, estando longe de uma visão unívoca e definitiva sobre criatividade e pensamento crítico. Ao longo dos próximos meses, novos conteúdos serão incorporados, em um trabalho coletivo, colaborativo e inspirador de muitos educadores parceiros do Instituto Ayrton Senna. Acompanhe!

.
.
.

POR QUE PROMOVER
CRIATIVIDADE E
PENSAMENTO CRÍTICO
NAS ESCOLAS?

.
.
.

Educação do século 21
para o desenvolvimento pleno

.
.

O mundo contemporâneo se modifica com muita rapidez. Em inúmeros contextos, as pessoas se veem diante de situações muito complexas e com alta conectividade – especialmente virtual e tecnológica – com grande desigualdade e instabilidade social e ritmos cada vez mais elevados de produção e consumo, muitas vezes caminhando para a própria insustentabilidade. Diante deste cenário, é essencial repensar o que compreendemos como educação e o que esperamos da escola e de suas práticas.

Historicamente, a escola sempre foi - e continuará sendo - um ambiente de socialização e de acesso ao conhecimento. No entanto, se antes o foco era quase exclusivo na transmissão e no domínio de conteúdo, por meio da dimensão cognitiva dos estudantes, hoje se torna urgente construir efetivas oportunidades para permitir, com o mesmo empenho, tanto a aprendizagem quanto o desenvolvimento de um conjunto de competências essenciais para uma atuação social autônoma, responsável, solidária, com capacidade de adaptação dos desafios e de seguir aprendendo ao longo da vida. E é aqui que entra também a valorização de competências como criatividade e pensamento crítico, entre outras.

Portanto, a maior busca é por uma educação com propósito de dar oportunidade ao desenvolvimento pleno de crianças, adolescentes e jovens, para que sejam impulsionados em todo seu potencial para viver, conviver, aprender e produzir, qualquer que seja seu contexto socioeconômico e seu projeto de vida. Esta é a educação mais capaz de gerar realizações em muitos resultados relevantes para cada estudante e também de reduzir desigualdades sociais.

Atualmente, a maior diretriz oficial para os currículos de todas as escolas brasileiras, desde a educação infantil até o Ensino Médio, retoma esse debate sobre o propósito da educação escolar. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi aprovada em algumas etapas, a primeira delas publicada em 2017, e contou com contribuições de educadores e especialistas para explicitar quais são as aprendizagens que todo estudante brasileiro tem direito de desenvolver, independentemente da rede em que estude. O documento estabelece que a educação deve ser uma oportunidade para o desenvolvimento pleno dos estudantes e que, especialmente nas sociedades atuais, deve resultar de oportunidades equânimes e inclusivas para que todos possam viver com autonomia diante dos inúmeros desafios de nosso tempo. Firma, assim, um compromisso com aquilo que muitos já defendem como educação integral.

Independentemente da duração da jornada escolar, para os proponentes da educação integral o conceito se refere à construção de processos educativos que ampliam o propósito da escola ao considerar as múltiplas dimensões humanas – cognitivas, emocionais, sociais, corporais e culturais. Ao valorizar essas dimensões com o mesmo cuidado com que fazem com o conteúdo mais tradicional, as propostas de educação integral tornam explícita a intenção de desenvolver o estudante como um todo, e não apenas na aquisição de conhecimentos fragmentados. Dessa forma, políticas públicas, práticas de gestão, formação de professores, ações de planejamento escolar e metodologias de ensino e aprendizagem usadas por cada professor, em qualquer aula ou componente curricular, podem contribuir para o principal objetivo dessa educação: promover uma formação em que crianças, adolescentes e jovens possam aprender com excelência e também se autoconhecer de forma plena, para utilizarem seu potencial ao se relacionarem consigo mesmos, com os outros e com os desafios para estabelecerem e construírem seus projetos de vida e de comunidade.

 

O QUE É
EDUCAÇÃO INTEGRAL?

Sob essa perspectiva, ensinar e aprender vão além de atos de transmissão e assimilação de conteúdo, pois passam a envolver vivências significativas consigo mesmo e com outras pessoas. Para construir propostas com esse foco, somos confrontados com a pergunta: quais são os desafios e possibilidades para a educação no século 21? Que demandas adicionais o atual contexto traz para as propostas de educação integral?

.
.

O MUNDO CONTEMPORÂNEO, SEUS DESAFIOS E POSSIBILIDADES

.

Com a evolução da tecnologia, a conectividade global e facilidade de acesso ao conhecimento ou às opiniões divergentes sobre um mesmo tema, as maneiras com que resolvíamos problemas no século 20 já não são mais suficientes para atender aos desafios do século 21. Vivemos em um mundo volátil, incerto e ambíguo que confere uma nova complexidade à sociedade contemporânea. Nela, somos obrigados a buscar soluções mais ágeis e diversificadas que respondam com urgência às nossas necessidades, tanto individuais quanto coletivas.

Devido à fluidez e velocidade com que se pode acessar o conhecimento, situações que antes tinham pouco impacto na vida cotidiana agora refletem, e muito, em toda a sociedade. O próprio conhecimento passa a ser questionado, no que especialistas chamam da era da pós-verdade, em que a objetividade dos fatos parece ser questionada diante das crenças e ideologias.

Com um volume cada vez maior de informações circulando em grande velocidade, partindo de fontes dispersas e com objetivos nem sempre claros, como selecionar aquelas que serão realmente confiáveis e úteis para criar soluções criativas e bem fundamentadas para os problemas da vida cotidiana? Como construir alternativas ou imaginar outros futuros? Se o papel da educação é preparar o estudante para este mundo, como a escola pode desenvolver as competências necessárias para formar cidadãos atuantes e protagonistas no século 21?

É neste contexto que ganham ainda mais relevância as iniciativas que visam organizar e definir o amplo conjunto de competências existentes e possíveis de serem desenvolvidas por cada pessoa. No dia a dia, são dezenas de atitudes, sentimentos e convicções que norteiam as ações de cada pessoa, e atualmente há muitas teorias ou propostas sobre como compreender o papel dessas competências e quais devem ser foco de ação intencional nas escolas. A própria BNCC, por exemplo, procura endereçar essa necessidade ao elencar um conjunto de dez competências gerais tidas como essenciais para uma formação que contribua para a vida no mundo contemporâneo. Essas competências gerais combinam aspectos cognitivos (relacionados à aquisição e domínio de conhecimentos, como o raciocínio e a memória), socioemocionais e híbridas. As chamadas competências socioemocionais¹ são capacidades individuais que se manifestam nos modos de pensar, sentir e nos comportamentos ou atitudes para se relacionar consigo mesmo e com os outros, estabelecer objetivos, tomar decisões e enfrentar situações adversas ou novas. Elas podem ser observadas em nosso padrão costumeiro de ação e reação frente a estímulos de ordem pessoal e social. Entre outros exemplos, estão a persistência, a assertividade, a empatia, a autoconfiança e a curiosidade para aprender.

file

Tão relevantes quanto as competências cognitivas e as socioemocionais, as competências híbridas também são destacadas pela BNCC e podem ser definidas pela combinação mais marcante de elementos desses dois conjuntos. Entre as híbridas, a criatividade e o pensamento crítico têm sido destacadas e merecem ser analisadas e discutidas com especial atenção, devido à sua complexidade e importância no mundo contemporâneo.

.

Competências socioemocionais

Essas competências são maleáveis, ou seja, podem ser desenvolvidas através de experiências formais e informais de aprendizagem – mas, para isso, é crucial que exista intencionalidade, para que exista consciência das competências que se busca desenvolver e ampliação do repertório de habilidades. Estudos indicam que elas são importantes impulsionadoras de realizações ao longo da vida, como na saúde e no bem-estar de cada um, na qualidade de relações sociais e também nos processos de aprendizagem. Na prática, não acontecem de forma separada dos aspectos cognitivos, portanto sua definição visa gerar mais clareza sobre suas especificidades e relevância.

 

DEPOIMENTO
VERÔNICA
SANTOS

POR QUE PENSAMENTO CRÍTICO E CRIATIVIDADE?

.

O pensamento crítico e a criatividade vêm ganhando cada vez mais espaço nas pautas de discussões sobre o que precisamos desenvolver nos estudantes. Essas duas competências são particularmente relevantes para que cada pessoa possa analisar, filtrar, selecionar e usar informações, estabelecendo novas conexões entre saberes e criando diversas possibilidades de uso dos dados e pontos de vista.

Recentemente, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) deu papel de destaque para essas duas competências. Os resultados de um grande projeto colaborativo liderado pela organização com esse enfoque foram apresentados em 2019, com a participação do Brasil. Na conferência internacional “Habilidades de Criatividade e Pensamento Crítico na Escola: Avançando a Agenda”, representantes de Ministérios da Educação de diversos países, educadores, pesquisadores e atores da sociedade civil organizada compartilharam suas análises sobre a urgência de apoiar professores para promover o desenvolvimento dessas competências entre os estudantes.

De acordo com os organizadores do evento, há um consenso crescente de que a educação formal deve contribuir com a criatividade e o pensamento crítico de estudantes, no entanto esse objetivo é dificultado por um entendimento limitado sobre como esse tema pode ser inserido no cotidiano das escolas. “Promover a criatividade e o pensamento crítico de formas mais sistemáticas e efetivas requer o desenvolvimento de estratégias e ferramentas que auxiliem professores, estudantes e formuladores de políticas públicas a articular essas competências de forma mais visível e tangível, especialmente como parte do currículo”, segundo argumento do material de apoio do evento.

Além de contar com dezenas de apresentações de nomes que são referência no mundo das ciências e das artes, educadores comprometidos com o desenvolvimento pleno dos estudantes que argumentaram sobre o papel dessas duas competências nas sociedades atuais, a conferência defendeu a necessidade de avançar nas abordagens e iniciativas de qualidade para inserir a criatividade e o pensamento crítico nas escolas. Por isso, foi lançada a publicação com os principais achados do projeto de quatro anos em que times de onze países utilizaram uma base conceitual comum para elaborar instrumentos de avaliação e de desenvolvimento dessas competências em âmbito escolar.

 

O QUE DIZEM ESPECIALISTAS
SOBRE ESSAS HABILIDADES

 

 

O Brasil integrou a publicação com um projeto do Instituto Ayrton Senna, implementado em Chapecó (SC), em parceria com as secretarias municipal e estadual de Educação e a FIESC (Federação das Indústrias de Santa Catarina), conforme conteúdo que pode ser conferido na última seção deste guia. As experiências bastante diversificadas de cada país integrante do projeto permitiram à organização reunir sugestões para ações de formação de professores com este enfoque, além de um banco de recursos com planos de aula (que explicitam a criatividade e o pensamento crítico em diversos componentes curriculares, como matemática, linguagens, ciências e artes) e rubricas que apoiam o monitoramento e a avaliação formativa de estudantes de forma a apoiá-los a avançar nos diversos níveis de cada competência, segundo seus próprios objetivos.

Segundo a organização, aprendizagens obtidas com esse projeto foram inspirações para o novo componente que será inserido no PISA 2021, que também irá avaliar o pensamento criativo, uma das manifestações da competência criatividade.

Neste Guia Digital, o Instituto Ayrton Senna busca compor o cenário desse debate, conectando o argumento internacional à experiência e às necessidades e potencialidades da realidade brasileira.

A seguir, alguns dos principais conhecimentos reunidos pelos especialistas do Instituto sobre o que são criatividade e pensamento crítico, como se manifestam e o que estas duas competências têm em comum. Este guia traz ainda reflexões sobre qual é o papel do professor no desenvolvimento do estudante e a importância de reunir diversas práticas e metodologias para apoiar esta atuação, como a avaliação formativa.

.

O PISA (sigla em inglês para Programa Internacional de Avaliação do Estudante) é um sistema de avaliação administrado pela OCDE a cada três anos para diagnosticar os níveis de habilidades e conhecimentos dos estudantes de 15 anos. Além dos países membro do grupo, outros podem aderir à aplicação, como é o caso do Brasil. Mais de meio milhão de estudantes de 72 países participaram do ciclo de 2015. O PISA avalia o aprendizado em matemática, ciências e leitura, além de um quarto domínio inovador que muda a cada ciclo.

.
.

Os conceitos
e suas implicações

.

O QUE É CRIATIVIDADE?

.

Para o senso comum, a criatividade é vista, muitas vezes, como um dom ou talento inato, pertencente a poucas pessoas que teriam o privilégio de ter nascido com ela. Com base nessa crença, não se esperava que todas as pessoas pudessem ter algum tipo de criatividade ou receber estímulos para isso. É comum ouvir, até hoje, frases do tipo: “Não nasci criativo” ou “Não tenho criatividade porque na minha família não tem ninguém criativo”.

Outra crença comum sobre a criatividade é que ela seria uma expressão típica do campo das artes e, portanto, o local natural para o desenvolvimento da criatividade ficaria restrito às aulas de educação artística. Desse modo, produções criativas relacionadas a domínios mais técnicos ou cotidianos não são, em geral, entendidas como manifestações da criatividade.

A ciência contemporânea, no entanto, traz outro entendimento sobre o que é criatividade, e o próprio cotidiano no século 21 nos mostra que é importante valorizar um outro ponto de vista sobre ela. Ao invés de um talento inato e reservado a artistas, a criatividade é compreendida como uma competência possível de ser desenvolvida e estimulada em todos os níveis educacionais e todas as áreas do conhecimento ou qualquer atividade que vise dar solução a um problema. Com essa definição, a criatividade é entendida como um grande potencial que o ser humano dispõe para enfrentar o novo e seguir avançando na ciência, na tecnologia, na comunicação, nas artes e em muitos outros campos.

Criatividade é uma competência complexa e híbrida, pois surge da composição de elementos distintos, tais como conhecimentos e saberes, capacidade de resolução de problemas e domínios socioemocionais - como autogestão e abertura ao novo. Além disso, dependendo da natureza do problema a ser resolvido, outros aspectos cognitivos e socioemocionais específicos podem ser requisitados, por exemplo:

 

  • Problemas que envolvem interação social - podem requisitar habilidades de comunicação, empatia e engajamento com os outros;
  • Problemas que envolvem resistência à fadiga - podem necessitar de boas doses de autoconsciência, autogestão e resiliência emocional.
     

Um modo de definir a criatividade é entender que sua expressão envolve a elaboração de ideias, processos e/ou produtos que apresentam algum grau de ineditismo (ainda que apenas para a própria pessoa, quando pensamos no campo da educação) e que tragam soluções efetivas a alguma problemática. Uma simples reprodução de um mesmo modelo de solução aplicado em outro contexto não pode, desse modo, ser compreendido como uma produção ou um processo criativo. É importante lembrar que todo ato criativo é, em certa medida, um ato autoral, muitas vezes resultado de um pensamento divergente.

Quer saber um pouco mais sobre a criatividade? Leia esse texto que a pesquisadora Denise de Souza Fleith preparou para nosso guia: O Papel da Criatividade na Educação do Século XXI

.

COMO A CRIATIVIDADE SE MANIFESTA?

.

É importante ter em mente que a criatividade é atravessada por valores culturais, o que significa que certas manifestações da criatividade são mais reconhecidas e legitimadas do que outras. Essa valorização depende do contexto cultural, social e histórico, e deve ser considerado ao se observar uma pessoa resolvendo um problema. Valorizar um comportamento é a maneira mais efetiva de torna-lo frequente, assim, ao se observar as atitudes de alguém durante um processo de criação (seja de um projeto, de uma apresentação ou de proposta de solução para um impasse) é possível aproveitar as situações para reforçar a expressão criativa dessa pessoa. Essa sensibilidade é essencial para os contextos de ensino e aprendizagem, visto que muitas manifestações da criatividade podem passar despercebidas por não estarem explícitas no produto final.

A psicologia contemporânea identifica quatro expressões importantes para se observar no processo criativo: 1) entender o “problema” (pode se relacionar a qualquer situação que demande uma solução); 2) praticar projeção criativa (ou imaginação); 3) colocar em prática as ideias; 4) refletir sobre o processo.

1) Entender uma informação nova ou um “problema” que se apresenta é essencial para dar uma solução criativa que seja efetiva. Esse é o momento para tentar conhecer com certo detalhamento e precisão a situação ou desafio em questão.

2) A projeção ou imaginação criativa se refere ao momento em que se possibilita liberdade à imaginação e fluidez ao pensamento. O problema em questão é interiorizado e passa por associações que somente aquela pessoa faz, de forma bastante subjetiva, pois se refere às outras experiências que integram sua biografia. É um momento de diferenciação do problema, pois ele passa a ser compreendido em relação a um universo específico de informações e sentimentos particulares de cada um. Além disso, já passa a contar com conexões que podem ser acionadas para uma possível resolução da situação.

3) A etapa de colocar em prática as ideias elaboradas é bastante importante, pois é quando a pessoa faz o possível para concretizar os passos que projetou na etapa anterior e testa a viabilidade ou a efetividade de uma ideia ou solução.

4) Por fim, é importante realizar a etapa de reflexão, pois é quando a pessoa se apropria das etapas do pensamento e da implantação das ideias que elaborou, aprendendo conscientemente com a própria experiência e, desse modo, articulando seu esforço e suas habilidades para aperfeiçoamento.

É essencial considerar essas quatro expressões da criatividade ao planejar ações de educação que tenham como foco a promoção dessa competência. Por exemplo, quando um estudante se depara com um conhecimento novo, o primeiro passo é tentar entendê-lo, ter abertura e interesse para investigar suas origens e as várias implicações desse conhecimento e como ele se manifesta, para depois dar asas à própria imaginação e conectar com sua rede de conhecimentos, com a projeção de usos diversos para a informação nova ou com a possibilidade de resolução de algum problema. Esse processo é, muitas vezes, exclusivamente privado ou subjetivo, uma vez que está ocorrendo mentalmente e não de modo compartilhado ou socializado. Por isso, essa expressão da criatividade tem impacto apenas para a própria pessoa.

No próximo momento, coloca-se em prática o processo criativo, de forma que ele pode ter impacto em seu ambiente imediato, em alguma medida: com pessoas e elementos que estão envolvidos com o problema em questão. Colocar em prática, deslocar a ideia para ações concretas, lidar com as dificuldades que possam aparecer pelo caminho, ter flexibilidade para reposicionar as ideias ou propostas de solução, abrir-se para o feedback dos outros envolvidos e para o desafio que se impõe é fundamental para construir conhecimento e se apropriar do próprio processo de resolução de problemas. Pela própria natureza, essa etapa envolve a expressão compartilhada da criatividade, seja entre alunos, ou apenas entre um aluno e seu professor, e, por isso, essa é a etapa mais propícia para a ação docente para incentivar, valorizar e dialogar com o estudante, facilitando o desenvolvimento da criatividade de maneira intencional e explícita.

Em inúmeros estudos e linhas de pesquisa, a manifestação da criatividade está diretamente relacionada ao “produto criativo”, que idealmente além de ser algo novo deve ser apropriado para ser utilizado em alguma situação e obter reconhecimento social (isso quer dizer que não basta fazer algo diferente para ser considerado uma produção criativa, é preciso também que seja algo relevante para mais de uma pessoa). Em contextos educacionais, no entanto, além de observar a produção final é igualmente essencial reconhecer e valorizar o processo pelo qual cada estudante vivencia as etapas da expressão da criatividade e também sua autopercepção sobre como ele se entende mais ou menos criativo em cada atividade específica, ainda que não detenha reconhecimento social como uma pessoa destacadamente criativa de modo geral.

Embora seja possível identificar características bastante particulares e relacionadas a cada contexto para que uma pessoa se considere criativa (cada um pode ser mais ou menos criativo sempre em relação alguma tarefa ou desafio específico, e não de forma abstrata ou independente de uma situação ou domínio de conhecimento), alguns pesquisadores buscam identificar características comuns em diversos processos criativos, como por exemplo a sequência de níveis em que ela pode ser reconhecida, que algumas linhas de pesquisa classificam como:

  • O nível mais inicial pode ser denominado de "Mini-c" e se refere a ideias e ações que têm impacto pequeno e apenas para a pessoa em si, mais ninguém.

  • O segundo nível é denominado de “Pequeno-c” e se refere à resolução de problemas que afetam o cotidiano. Aqui não basta uma ideia, é preciso ser uma construção que possa ser aplicada.
  • O terceiro nível é denominado de “Pro-c” e se refere à resolução de problemas que afetam contextos coletivos, por exemplo escolares ou laborais, isto é: resolução de problemas de ordem mais ampla.

  • O quarto nível é denominado de “Grande-c” e se refere à resolução de problemas que afetam grandes contingentes de pessoas, a sociedade ou a cultura. Faz referência às conquistas de pessoas eminentes na história. 

O QUE É PENSAMENTO CRÍTICO?

.

De maneira geral, o pensamento crítico também costuma ser visto de forma simplificada, e muitas vezes é associado a posturas negativistas, resistentes a qualquer informação ou posição diferente, e até mesmo ao ceticismo puro. No século 21 também é essencial ampliar essa compreensão, identificando as diversas facetas dessa competência e as etapas necessárias para se ter uma posição embasada em pensamento crítico de forma propositiva para resolução de problemas. Assim como na criatividade, no caso do pensamento crítico não podemos considerar que é apenas uma competência “nata”, com a qual alguém já nasce ou não, e sim algo que pode ser estimulado entre todos, e que tem efeitos notáveis no dia a dia em uma sociedade que demanda, cada vez mais, tomadas de decisão embasadas, análise de informações de todos os tipos e construção de posicionamentos sobre as mais diversas temáticas. Visto dessa forma, essa é também uma característica valiosa para todas as pessoas, e não específica de apenas um campo do conhecimento ou área de atuação.

O pensamento crítico é uma competência que habilita a pessoa a se posicionar de modo racional e analítico frente a situações do cotidiano e, portanto, se manifesta sempre que alguém se depara com alguma informação, situação ou atitude de outras pessoas e busca fazer uma análise de sua validade (compreendendo os fatos, a lógica, a coerência argumentativa etc.), sua origem (quem e o que motivou a construção e divulgação da informação) e finalidade (a quem a informação pretende chegar e com qual objetivo). Aproxima-se do pensamento filosófico (lógica, por exemplo) e científico, pois é entendido como uma expressão de racionalidade.

Quando o pensamento crítico se mostra bem desenvolvido, também é caracterizado pela superação de binarismos, simplificações e egocentrismos: uma informação não é categorizada simplesmente como boa ou má, adequada ou inadequada, algo que alguém gosta ou não gosta. O pensamento crítico se expressa pela problematização, decomposição e ressignificação da informação ou situação.

.

AS ETAPAS ENVOLVIDAS NA ANÁLISE CRÍTICA PODEM SER COMPREENDIDAS DA SEGUINTE FORMA

1. Entendimento do conteúdo

uma informação deve ser compreendida de modo estrito e preciso para que seja passível de análise crítica. Isto é: em um primeiro momento, a informação deve ser compreendida com base no que está sendo transmitido e sem extrapolações, predisposições ou ideações.

2. Contextualização do conteúdo

uma informação sempre se estrutura a partir de intertextualidades e de uma visão de mundo, o sujeito crítico deve ser capaz de localizar (minimamente) outras informações que se articulam com ela. Isso faz parte de uma capacidade de leitura de mundo e do uso de outros saberes para se posicionar frente à informação. A contextualização da informação com base em seus conhecimentos prévios faz com que o conteúdo seja apropriado pela pessoa também de forma subjetiva, pois se relaciona com as outras experiências que ela já teve e com sua visão de mundo.

3. Decomposição e análise de validade

uma informação é composta por argumentos e fatos. Para analisar sua validade, deve-se avaliar a coerência e a razoabilidade entre argumentos, fatos e conclusões. Desse modo, o pensamento crítico envolve a apropriação consciente de um método mental de análise do conhecimento e das informações, que permite a identificação de falácias e de fake news.

4. Compartilhamento

quando a pessoa coloca seu entendimento e leitura da informação de forma aberta com um grupo, se abre ao diálogo e ao “teste”, uma forma de receber feedbacks e aprender por meio do compartilhamento, dado que outras pessoas podem chamar atenção para pontos que não haviam sido considerados, ou indicar alguma lacuna e equívoco na análise das informações.

5. Reflexão e ressignificação

após entender a informação, contextualizá-la, analisar sua pertinência e validade e conversar com outras pessoas sobre suas ideias e conclusões, o sujeito crítico pode refletir sobre o modo como o pensamento crítico se expressou na situação dada, quais pontos podem ser aperfeiçoados, dar um sentido para o processo e, muitas vezes, utilizá-lo para fazer uma escolha ou tomar um posicionamento, no qual circunscreve a informação com base em sua análise.

Assim como a criatividade, o pensamento crítico é uma competência complexa e híbrida, pois é formada por componentes cognitivos (conhecimento sobre o assunto, por exemplo) e socioemocionais (autogestão, abertura ao novo) que possibilitem a análise de uma informação.

.
.

COMO O PENSAMENTO CRÍTICO SE MANIFESTA?

.

Do ponto de vista da psicologia, há pesquisas que sugerem que o desenvolvimento do pensamento crítico ocorre em estágios, intrinsecamente relacionados à complexidade do próprio pensamento de modo geral. Na prática, esses estágios não acontecem de forma “pura” ou em uma progressão clara, mas podem se complementar e ser identificados em uma mesma pessoa, a depender da situação – pois uma pessoa pode apresentar um alto grau de pensamento crítico sobre uma determinada temática como política educacional, por exemplo, mas não para outra como relações internacionais. As etapas a seguir não devem ser confundidas, portanto, com ‘rotuladores’ de personalidade, e sim como indicadores das variadas formas de expressão da competência de pensamento crítico:

.

Pensadores não reflexivos

Não se apropriam conscientemente do próprio pensamento, ou seja: não pensam sobre o pensar. Agem mais por impulso que por tomada consciente de decisão e ignoram o efeito do modo como pensam em elementos concretos do dia a dia. Não se percebe aqui criticidade. Os pensadores não reflexivos desconhecem em grande parte os padrões apropriados para a avaliação do pensamento: clareza, exatidão, precisão, relevância, coerência e finalidade. Podem ter desenvolvido uma variedade de habilidades no pensamento sem estarem conscientes delas. Preconceitos e equívocos frequentemente minam a qualidade do pensamento do pensador irrefletido que se mostra egocêntrico, emocional e etnocêntrico.

Pensadores desafiados

Os pensadores passam para o estágio “desafiado” quando se tornam inicialmente conscientes do papel determinante que o pensamento desempenha em suas vidas, e do fato de que problemas em seu pensamento causam dificuldades sérias e significativas. Pensadores desafiados, ao contrário dos não reflexivos, começam a se conscientizar sobre o pensamento como tal, do modo como o processam em cada situação. Eles entendem, em algum nível, que o pensamento de alta qualidade requer reflexão deliberada sobre o pensar (a fim de melhorar o pensamento). Eles reconhecem que seu pensamento pode ter defeitos, embora não sejam capazes de identificar com clareza muitas das falhas e imprecisões.

Pensadores críticos iniciantes

Aqueles que se movem para o estágio de pensadores críticos iniciantes assumem ativamente o desafio de comandar seus pensamentos em vários domínios de suas vidas. Pensadores iniciantes, ao contrário dos desafiados, têm consciência não apenas do pensamento como tal, mas também do papel do pensar sobre conceitos, suposições, inferências, implicações, pontos de vista etc. Além disso, são capazes de apreciar críticas a sua forma de pensamento. Os pensadores, nesse estágio, reconhecem que têm problemas básicos em seu pensamento e fazem tentativas iniciais de entender como podem controlá-lo e melhorá-lo. Com base nessa compreensão inicial, começam a modificar alguns de seus pensamentos, mas têm um conhecimento limitado sobre os níveis mais profundos do problema inerente ao seu pensamento. Falta-lhes um plano sistemático para melhorar o raciocínio e recorrem com frequência a estratégias mais egocêntricas e etnocêntricas. Para o trabalho pedagógico, essa é uma expressão particularmente relevante, pois há muita abertura individual para redesenhar o modo de pensar e analisar o mundo.

Pensadores críticos pragmáticos

Os pensadores, nesse estágio, têm uma noção dos hábitos que precisam desenvolver para assumir o controle de seu pensamento e, assim, aperfeiçoá-los. Eles não apenas reconhecem que existem problemas, mas também percebem a necessidade de agir sobre eles de modo global e sistemático. Tendem a analisar ativamente seu pensamento em vários domínios. No entanto, por estarem apenas começando a abordar a melhoria do pensamento de uma maneira sistemática, ainda têm um conhecimento limitado sobre os níveis mais profundos do pensamento e sobre os problemas relacionados a ele. Os pensadores pragmáticos têm habilidade suficiente para pensar criticamente e monitorar os próprios pensamentos. Assim, podem efetivamente articular forças e fraquezas do ato de pensar. Ao contrário dos iniciantes, começam a perceber o que seria necessário para monitorar sistematicamente o papel de seus conceitos, suposições, inferências, implicações, pontos de vista, etc. Nesse estágio, os pensadores começam a abandonar o módulo binário (bom x mau, por exemplo) do modo como avaliam informações e acontecimentos. Apesar de já se mostrarem como problematizadores, conseguem fazer isso em alguns domínios ou temáticas, mas não de modo geral.

Pensadores críticos avançados

Já estabeleceram bons hábitos de pensamento. Com base neles, não só analisam ativamente o próprio pensamento em todos os domínios significativos de suas vidas, como também têm uma percepção significativa dos problemas. São capazes de pensar sobre todas as dimensões importantes de suas vidas, mas não em um nível consistentemente alto. Mas ainda recorre, por vezes, a binarismos e argumentos egocêntricos e etnocêntricos. Estão ativamente engajados no monitoramento sistemático dos papeis dos conceitos, suposições, inferências, implicações, pontos de vista em seus pensamentos. Os pensadores avançados também têm conhecimento do que é necessário para avaliar regularmente seu raciocínio em busca de clareza, exatidão, precisão, relevância, lógica etc. Valorizam a profunda e sistemática internalização do pensamento crítico em seus hábitos diários.

Pensadores críticos realizados

Não apenas se encarregam sistematicamente de seu pensamento, mas também monitoram, revisam e repensam estratégias para melhorar de forma contínua seu modo de pensar. Internalizaram profundamente as habilidades básicas do pensamento, de modo que o pensamento crítico é, para eles, consciente e altamente intuitivo. Elevam regularmente o pensamento ao nível da realização consciente. Com uma extensa experiência e prática de autoavaliação, estes pensadores não apenas analisam ativamente o pensamento em todos os domínios significativos de suas vidas, mas também desenvolvem continuamente novas ideias sobre problemas em níveis mais profundos do pensamento. Os pensadores realizados estão profundamente comprometidos com o pensamento imparcial e têm um alto nível de controle, ainda que não perfeito, sobre sua natureza ego e etnocêntrica. Regularmente, de forma eficaz e perspicaz, criticam o próprio uso do pensamento em suas vidas e, assim, o aprimoram. Eles monitoram consistentemente os próprios pensamentos e articulam os pontos fortes e fracos inerentes a ele. Têm um conhecimento excelente sobre as qualidades do próprio modo de pensar.

.

O QUE ESSAS COMPETÊNCIAS TÊM EM COMUM?

.

 

DEPOIMENTO
HÉLIO BRAGA

Criatividade e pensamento crítico são:

Competências complexas e híbridas

São complexas, pois são compostas por várias outras competências e se expressam quando estas são mobilizadas simultaneamente. Embora por muito tempo ambas tenham sido consideradas como parte do desempenho cognitivo de uma pessoa, mais recentemente vêm sendo analisadas como híbridas, pois estudos mostram com mais clareza que elas se expressam com a mobilização simultânea de algumas competências cognitivas e socioemocionais em um contexto que requisite sua ação.

Universais

Todas as pessoas, independentemente da idade, apresentam comportamentos que expressam criatividade e pensamento crítico de diferentes maneiras e graus de sofisticação e complexidade. As diferenças individuais na manifestação dessas competências dependem das condições biológicas, biográficas, contextuais e culturais que determinam o desenvolvimento da pessoa ou do grupo em questão. Essas competências podem ser aprendidas e modificadas ao longo da vida, apesar de que quanto mais cedo começa o seu desenvolvimento intencional, mais fácil será para o indivíduo aprendê-las e elaborá-las.

Potências

A expressão dessas características depende do encontro entre o sujeito (e seu nível atual de desenvolvimento) e um contexto que estimule a utilização das mesmas. Pode-se interpretar que se tratam de forças internas que precisam de um “gatilho” para se expressarem e que, em um contexto favorável, podem ser aprimoradas, voltando ao estado de potência latente assim que deixam de ser mobilizadas.

Tendem a ser contexto-dependentes e conectadas a valores da sociedade

Para que a criatividade e o pensamento crítico se expressem, é necessário que o contexto provoque a expressão dessas competências, de modo que se relacionam fortemente com as condições culturais e socioeconômicas do ambiente em que se inserem. Além disso, a valorização da expressão criativa e da capacidade crítica de alguém também é dependente de valores culturais: certas formas de expressão são mais valorizadas que outras e, por essa razão, mais visíveis aos olhos das pessoas e dos instrumentos de medida.

Atos autorais

A expressão dessas duas competências está relacionada a aplicações, elaborações e processos inéditos e construções pessoais, não se tratando de uma simples reprodução.

Processos em rede e intertextuais

Mesmo que realizados individualmente, o fazer criativo e o pensamento crítico encontram suas raízes em experiências interpessoais e intertextuais anteriores, pois necessitam de um contato prévio com pessoas, situações, textos, mídias, conceitos, atitudes e modelos de referência que possam alimentar a ação (criativa ou crítica). As duas competências partem de uma leitura de mundo, portanto necessitam de um conhecimento do mesmo.

São conjecturais

Tanto o pensamento crítico quanto a criatividade partem do entendimento de uma situação problema, ou seja, não acontecem “no vazio” e sim em uma determinada conjuntura. A análise crítica desta situação ou a resolução criativa do problema é sempre algo específico de um domínio, ou de uma temática (por exemplo, sobre como produzir música com um novo instrumento dado ou como compreender fake news sobre o formato do planeta Terra). Pensar em uma pessoa que é “integralmente” criativa ou pensadora crítica, em todos os domínios da vida e em qualquer situação, é possivelmente uma dificuldade, já que não é o que qualquer pessoa vivencia no seu dia a dia e vai na contramão do que as pesquisas apontam como a expressão dessas competências. Na prática, em cada contexto e em cada momento, aquele que é convidado a resolver ou analisar uma situação problema realiza conexões com outras referências e tenta gerar um entendimento mais completo da situação.

.

O papel do professor
no desenvolvimento do estudante

.

O objetivo da educação no século 21 é preparar os estudantes para lidar com os desafios que encontram tanto na escola como fora dela, além de serem autônomos para construir os projetos que planejarem, valendo-se para isso de seus conhecimentos e competências. Essa perspectiva promove mudanças no papel e na forma de atuação dos educadores de maneira geral, tanto na gestão de redes de ensino quanto no cotidiano escolar. Em sala de aula, para que o professor possa promover o desenvolvimento das competências dos estudantes de modo intencional, é preciso que esteja aberto a inserir essa temática em seu planejamento e suas ações, e que exista coerência entre o que diz e o que faz.

Além disso, se uma proposta de educação integral tem o compromisso com o desenvolvimento das múltiplas dimensões do estudante, também deve olhar para o docente de maneira integral, considerando tanto o desenvolvimento de suas próprias competências – sejam elas cognitivas, socioemocionais ou híbridas – como o desenvolvimento de suas práticas de ensino, valendo-se de metodologias inovadoras e de ações em conjunto com outros professores e equipe escolar.

Como mediador do conhecimento e do desenvolvimento pleno dos estudantes, o educador assume uma postura de acolhimento, escuta ativa e de promoção do protagonismo dos estudantes, que se corresponsabilizam pelo processo formativo como um todo. Dessa forma, ao invés de ser o único centro detentor de respostas, o professor estimula questionamentos e a construção conjunta do conhecimento. Outro princípio básico de uma educação integral é o de que o professor faz parte da solução e não do problema, tanto quanto o estudante. É preciso reconhecer seu potencial transformador e reflexivo, como gerador de conhecimentos, ao invés de focar nas vulnerabilidades. Esta é uma condição essencial para que ele se sinta confiante e preparado para exercer seu potencial na sala de aula e na escola.

 

DEPOIMENTO
LAURA DUSI

.

COMO PROMOVER O DESENVOLVIMENTO INTENCIONAL DESSAS COMPETÊNCIAS EM SALA DE AULA?

.

Existem diversas abordagens que visam desenvolver competências na escola. Em meio a tantas práticas educativas, como o professor pode preparar aulas que proporcionem um desenvolvimento efetivo e duradouro? É essencial que cada educador desenhe suas próprias propostas com autonomia, dado que ele é quem melhor conhece as características específicas de sua turma e do contexto em que atua, informações que são diferenciais relevantes e que podem ser melhor endereçadas quando há diversidade no conjunto de iniciativas promovidas nas escolas.

Estudos apontam, no entanto, que as práticas pedagógicas mais efetivas apresentam algumas características comuns. Entre outras, evidências indicam que é importante que todo planejamento apresente um desenho sintetizado como FASE: Focado, Ativo, Sequencial e Explícito (em inglês, geralmente apresentado como SAFE). Cada característica pode ser melhor compreendida a seguir:

Focado

Atividades desenhadas para desenvolver uma ou um grupo definido de competências como principal objetivo. É preciso ter foco em determinadas competências para que se possa aprendê-las com efetividade, por isso, ao invés de desenhos abertos demais, ou propostas que busquem abrir oportunidade para grupos muito amplos de aspectos, é preferível o desenho das atividades que seja direcionado a características bem delimitadas. Isso não significa que não deva existir um projeto pedagógico que, no conjunto de suas atividades, procure desenvolver um número maior e mais diversificado de competências.

Ativo

Atividades que utilizam metodologias ativas para proporcionar aos estudantes oportunidades para exercitarem competências. Estimula-se que participem de forma ativa durante o aprendizado de modo que vivenciem aquilo que se busca desenvolver, por meio, por exemplo, de discussões e debates entre os alunos em sala, realizando-se atividades em grupo, pela produção de projetos, ou outras atividades que demandem deles uma ação.

Sequencial

Atividades sequenciais, concatenadas e coordenadas de maneira intencional para promover o desenvolvimento de competências. Temas complexos podem ser divididos em tópicos e trabalhados, um de cada vez, em atividades próprias, mas que seguem uma lógica e que se reforçam mutuamente. É importante que os estudantes percebam que as competências não são um tema “raro” ou valorizado apenas em uma única aula e resgatado eventualmente, mas sim que integram os objetivos de aprendizagem de forma consistente e como parte da rotina.

Explícito

Quando o professor tem clareza do que pretende desenvolver em uma sequência didática e quando os estudantes também sabem o que está sendo desenvolvido, os resultados tendem a ser mais efetivos e são generalizados com mais facilidade.

Cada professor pode identificar oportunidades variadas para desenhar práticas pedagógicas com essas características, e algumas metodologias de ensino oferecem ainda mais espaço para esse desenho. A problematização, a educação por projetos, a aprendizagem colaborativa e a presença pedagógica, por exemplo, são alguns caminhos potentes para promover as competências de forma aliada à aprendizagem em qualquer componente curricular.

Recentemente, a OCDE tornou públicos os principais resultados do projeto “Desenvolvendo e Avaliando a Criatividade e o Pensamento Crítico na Educação”, em um relatório e uma página de seu site especialmente dedicada ao tema. Além de apresentar o quadro conceitual utilizado pela organização para definir o que são essas duas competências e como elas podem ser identificadas no cotidiano escolar (por meio das chamadas rubricas, construídas com apoio dos educadores dos 11 países participantes do projeto), o material traz também relevantes sugestões para desenvolvimento dessas competências. Incluindo uma discussão sobre a importância da formação de professores para promover essa temática, e também uma indicação de 11 metodologias propícias para o trabalho com criatividade e pensamento crítico, o conteúdo reunido pela OCDE também propões diretrizes gerais para um planejamento de aulas ou sequências de atividades com este foco, e até mesmo um portfólio com algumas tarefas que foram efetivamente implementadas ao longo do projeto e que se mostraram propícias para apoiar a criatividade e o pensamento crítico dos estudantes.

Em março de 2020, o Instituto Ayrton Senna e a Fundação Santillana traduziram e lançaram a versão em Português dessa publicação. Você pode conferir todas as dicas de desenvolvimento no PDF disponível no site do Instituto e também conhecer o material original na página da OCDE.

Além de atividades intencionais, o professor pode se valer de ferramentas de apoio para promover o desenvolvimento de pensamento crítico e criatividade em sala de aula, tais como a avaliação formativa. O Instituto Ayrton Senna apoia o uso de avaliações formativas como parte de propostas de desenvolvimento de competências, e possui algumas iniciativas em que conta com a colaboração de educadores para utilizar e aprimorar essas ferramentas.

Na perspectiva do Instituto, avaliar significa mais do que medir o que o estudante foi capaz de demonstrar ter aprendido ao final de um percurso de aprendizagem; quando o objetivo é a educação integral, os instrumentos de avaliação podem ter múltiplos usos:

- em um contexto de avaliação formativa, os resultados podem funcionar como uma bússola para o estudante, na medida em que permitem que ele compreenda seu momento, defina suas metas pessoais de desenvolvimento e consiga direcionar seus esforços pois sabe o que quer alcançar;

- quando contam com momentos de feedback sobre seus resultados, os estudantes também podem usar a avaliação formativa como espaço de reflexão, de diálogo com o professor e para pensar meios de desenvolvimento pessoal com autonomia;

- ao utilizar os instrumentos de avaliação de forma conectada com atividades desenhadas para impulsionar determinadas competências, os professores também podem se valer dos resultados como um recurso orientador para o próprio trabalho pedagógico, identificando as características em que os estudantes podem avançar mais, e também monitorando a efetividade das intervenções que implementou (se os resultados de uma avaliação formativa aplicada antes de uma intervenção são muito semelhantes os resultados da mesma avaliação na pós-intervenção, é possível que ela precise ser aprimorada ou redesenhada).

As avaliações fazem parte do contexto escolar e de qualquer circunstância de desenvolvimento, mas em geral no modelo somativo (ou seja, ao final de um processo de ensino, com objetivo de verificar qual foi a aprendizagem acumulada, na maioria das vezes com consequências de aprovação ou reprovação) e quase sempre são realizadas pelos professores. Por essa razão, os estudantes costumam demonstrar estranhamento inicial quando são convidados a participar de avaliações formativas, em formato de autoavaliação, sobre competências de natureza socioemocional ou híbrida e sem consequências sobre sua progressão escolar.

As evidências mostram, no entanto, que o uso pedagógico de instrumentos de avaliação de competências pode trazer inúmeros benefícios para os estudantes, fomentar seu repertório e ainda o protagonismo no próprio percurso de desenvolvimento. O uso de instrumentos variados com objetivos diversificados e formatos de trabalho que rompem com a visão tradicional sobre a função das avaliações é algo extremamente positivo para todos os atores no contexto escolar. Uma excelente maneira de indicar a estudantes e professores que o propósito da educação não se resume ao mero acúmulo de conceitos decorados é justamente a ampliação das avaliações para abarcar também as competências socioemocionais e híbridas, e para um uso pedagógico, voltado a apoiar o percurso formativo.

Há inúmeros métodos para estabelecer essa cultura de avaliação (registros, autoavaliação, avaliação por pares, momentos de diálogo, portfólio, projetos, diário de aula, etc.) e podem se voltar para os diversos grupos de competências, como abertura ao novo, amabilidade, autogestão, engajamento com os outros, resiliência emocional, e também criatividade e pensamento crítico. Dado que nem todo mundo aprende do mesmo jeito nem ao mesmo tempo, alunos diferentes terão resultados diferentes, e no caso da avaliação formativa, por exemplo, isso não é considerado algo ruim ou que signifique algo melhor para um estudante e pior para outro – este é apenas um dos exemplos sobre os cuidados que é preciso tomar quando se realiza uma avaliação com este objetivo. Variar os instrumentos permite a ampliação do desenvolvimento de competências, uma vez que cada instrumento requer um tipo de repertório para sua resolução, além de fornecer ao professor mais elementos para consolidar a avaliação. Observar um aluno enquanto ele trabalha, analisar um portfólio, ouvir seu próprio argumento sobre sua progressão, amplia a oportunidade de verificar o quanto ele se apropriou das diversas competências previstas para aquele percurso de aprendizagem.

A seguir, mais informações sobre os elementos essenciais de uma avaliação formativa nas propostas do Instituto e algumas informações sobre como esse formato foi utilizado para um projeto voltado para a criatividade e o pensamento crítico em um conjunto de escolas de três redes de ensino.

.

AVALIAÇÃO FORMATIVA EM DETALHES

.

Em uma proposta de educação integral, a avaliação é um importante fator de integração do currículo, no sentido de se estabelecer um projeto comum norteador que, de fato, auxilie gestores, professores e estudantes nos processos de ensino e aprendizagem. Na construção de tal projeto, uma travessia se mostra fundamental: ressignificar, diversificar e aprofundar os procedimentos avaliativos, muitas vezes reduzidos a provas, trabalhos e nota.

A avaliação, compreendida como uma prática educativa, é muito mais complexa do que a ideia de uma nota que mede o desempenho. Afinal, o que está em jogo não é a “assimilação de conteúdos”, mas a construção da autonomia intelectual do estudante, por meio da investigação constante de sua relação com os conhecimentos e do seu próprio desenvolvimento no âmbito das competências-foco da avaliação.

É preciso esclarecer que a nota, em si, não é o problema. Ela permanece sendo um parâmetro importante. O que se busca aqui é a construção e a percepção dos objetivos da formação de forma contextualizada, considerando que o desenvolvimento integral conjuga os aspectos cognitivos, socioemocionais e híbridos do desenvolvimento dos jovens, tais como: a capacidade de resolver problemas, o pensamento crítico, a capacidade de trabalhar em grupo etc. Neste sentido, portanto, só é possível saber se uma sequência didática ou um projeto escolar contribuiu para a formação do estudante se buscarmos identificar e interpretar suas práticas e características como um todo, combinando o parâmetro “nota” com outros instrumentos e dados mais qualitativos, que possibilitem um olhar mais amplo em relação ao estágio de desenvolvimento dos estudantes. É isso o que se busca com a avaliação formativa.

A avaliação formativa tem seu foco nos processos de ensino e de aprendizagem. Como premissa, considera que os estudantes têm ritmos e modos de desenvolvimento distintos, por isso o objetivo não é premiar ou atribuir nota. Como é realizada ao longo do processo educativo, a “fotografia” de cada momento avaliativo ajuda professores e estudantes a compreenderem como está acontecendo o desenvolvimento e oferece subsídios para intervenções qualificadas. Assim, os resultados obtidos com este formato de avaliação não se destinam a classificar cada estudante, e sim a identificar quais são as áreas em que é possível evoluir, definir uma meta compartilhada entre professor e estudante e orientar na escola das práticas e atividades mais propícias para alcançar o resultado esperado.

A avaliação formativa possui quatro elementos fundamentais:

elementos-avaliacao-formativa

Foco

É fundamental apresentar aos estudantes claramente o que será avaliado, discutindo com eles o foco da atividade, o instrumento que será utilizado e o que é esperado deles com relação ao desenvolvimento de competências. Mesmo que exista um desejo de desenvolver todas as competências, num projeto ou atividade não é possível nem vantajoso tentar apoiar o estudante com todas as características ao mesmo tempo. Então, o foco se refere à escolha das competências a serem avaliadas de forma acompanhada e assessorada naquele momento. O esforço do professor é trabalhar nessa etapa com uma linguagem que os alunos entendam e saibam o que se espera deles, de modo que possam compreender o que é a avaliação formativa e para o que ela serve: não é algo que trará como resultado uma nota, mas sim, a possibilidade de tornar-se mais autônomo e consciente em seu processo de desenvolvimento.

Atividades desafiantes

Para garantir oportunidades adequadas para o uso de instrumentos de avaliação formativa, é preciso que sua utilização se dê durante a realização de alguns tipos específicos de atividade e tenha tempo adequado de duração. Atividades desafiantes são ideais para a realização da avaliação formativa: São atividades que não têm uma única resposta correta e, portanto, permitem que apareçam diferenças entre caminhos, formas de pensar dos estudantes para solucionar diferentes tipos de problemas, e sejam provocados variados tipos de relações e colaborações entre eles, gerando oportunidades para usar e desenvolver suas competências, considerando justamente as competências-foco da avaliação.

Autoavaliação

A avaliação formativa contempla a autoavaliação dos estudantes sobre o seu desenvolvimento a partir das expectativas e uso dos instrumentos que foram discutidos e esclarecidos pelo professor. Alguns estudantes podem se superestimar, enquanto outros podem se subestimar. Para procurar evitar um diagnóstico parcial e subjetivo, os estudantes são convidados a apresentar evidências que justifiquem seus posicionamentos juntamente com a autoavaliação. Essas evidências são, então, problematizadas pelos professores durante a realização de feedbacks, num ciclo avaliativo constantemente praticado.

Feedbacks

A prática de feedbacks instaura uma nova cultura dentro da sala de aula, promovendo a criação de um vocabulário comum e da atitude de compartilhar a responsabilidade pelo aprendizado. O uso desse recurso é formativo quando ocorre durante a situação de aprendizagem, enquanto ainda há tempo de agir sobre ela. Por isso, o feedback é realizado a partir da autoavaliação que os estudantes fazem, utilizando os resultados em situações reais, ou seja, durante momentos diversos no contexto da atividade vivenciada. Os professores, em seus feedbacks, trabalham com os alunos para fornecer-lhes as informações necessárias para compreender melhor as lacunas que podem ser superadas e possíveis caminhos de avanço.

.

UMA EXPERIÊNCIA NA PRÁTICA

.

Entre os anos de 2015 e 2017, o Instituto Ayrton Senna realizou a implementação do projeto da OCDE no Brasil por meio de parceria com as Secretarias de Educação do município de Chapecó (SC), do Estado de Santa Catarina e também com a FIESC (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina). Com objetivo de promover a criatividade e o pensamento crítico dos estudantes, a equipe de trabalho partiu do quadro conceitual da OCDE, mas desenhou o projeto de implementação com autonomia. Foram realizadas formações de professores e inúmeras ações de acompanhamento ao longo dos semestres letivos, que resultaram na elaboração de rubricas próprias para o modelo de avaliação formativa implementado nas escolas parceiras, e na identificação de boas práticas em diversos componentes curriculares, que também compuseram um portfólio de atividades.

No total, mais de 3 mil estudantes participaram das ações relacionadas ao projeto, e os relatórios finais indicam que a maior parte dos professores usaram os materiais de diversas formas em sua prática pedagógica, mudaram sua visão sobre o que significam as competências de criatividade e pensamento crítico e destacaram um avanço na forma como panejam suas aulas, preparam atividades e colaboraram com colegas (91% relatou participação em grupos de trabalho para desenvolver planos de aula em conjunto, de forma alinhada com as rubricas). Os participantes também destacaram mudanças na motivação e no engajamento dos estudantes com a escola, bem como no clima escolar.

Conheça mais sobre essa experiência no relato da especialista do Instituto Ayrton Senna que liderou essa implementação, Laura di Pizzo.

 

DEPOIMENTO
LAURA DI PIZZO

Próximos
passos

.

Nesta seção, vimos que o professor tem papel crucial no desenvolvimento de competências de seus alunos. Para isso, precisa também de apoio e suporte para aprimorar as próprias competências e práticas de ensino. Discutimos ainda a necessidade de criar processos de avaliação com mais significado e que sejam mais diversos e amplos do que trabalhos, provas e notas.

A equipe do Instituto Ayrton Senna e educadores parceiros estão em constante trabalho para aprimoramento das propostas já desenvolvidas, análise de evidências e dos principais achados de estudos nacionais e internacionais sobre o tema, e também para o compartilhamento de práticas e inspirações para todos os educadores.

Ao longo dos próximos meses, novos conteúdos e materiais de apoio serão incorporados a este guia digital. Não perca!

.
.

Sugestões de materiais
complementares

.

Alencar, E. M. L. S., Braga, N. P., & Marinho, C. (2018). Como desenvolver o potencial criador. Um guia para liberação da criatividade em sala de aula. Petrópolis: Ed. Vozes.

Virgolim, A. M. R., Fleith, D. S., & Neves-Pereira, M. S. (2014). Toc Toc Plim Plim! Lidando com as emoções, brincando com o pensamento através da criatividade (13a ed.). Campinas: Papirus.

http://www.oecd.org/education/fostering-students-creativity-and-critical-thinking-62212c37-en.htm