Ceará comemora política socioemocional nas escolas e discute emoções para combate ao bullying

Celebração também contou com palestra sobre a importância do desenvolvimento emocional dos professores.

“O Ceará tem uma história de continuidade [na Educação] que serve de exemplo ao Brasil inteiro”. A afirmação de Tatiana Filgueiras, diretora do Instituto Ayrton Senna, ilustra o quanto as políticas públicas voltadas à Educação no estado do Ceará têm ganhado reconhecimento nacional. A fala foi feita durante evento recente que celebrou as ações realizadas em 2018 para a implementação de mais uma política nas escolas do estado: o Diálogos Socioemocionais, proposta educacional idealizada pelo Instituto para auxiliar o desenvolvimento de competências socioemocionais dos estudantes na escola.

“Essa parceria com o Instituto Ayrton Senna vem se consolidando junto com o Projeto Professor Diretor de Turma [uma espécie de tutoria] para termos metodologia, pois não há ensino que se dê sem intencionalidade”, disse Rogers Mendes, secretário Estadual de Educação, em uma das falas de abertura da celebração realizada na Escola Superior de Magistratura do Ceará.

Dalila de Freitas, secretária municipal de Educação de Fortaleza, também marcou presença na mesa de abertura. A secretária destacou que Fortaleza está “engatinhando” com a chegada do Diálogos Socioemocionais em turmas de 6º ano de 105 escolas, envolvendo 1.080 professores no trabalho com a proposta. “Em 2019, vamos consolidar ainda mais esse trabalho […] Precisamos proporcionar um aprendizado mais significativo para nossas crianças e jovens”, afirmou.

Emoções contra o buillying

O evento contou com exposições feitas pelos psicólogos e pesquisadores do Instituto Ayrton Senna Oliver P. John, professor da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, e Filip De Fruyt, docente e coordenador de cátedra na Universidade de Ghent, na Bélgica.

Na palestra intitulada “Contribuindo com a aprendizagem socioemocional dos estudantes”, John falou sobre as competências socioemocionais no contexto das escolas, considerando temas como suicídio e bullying. Ele afirmou que o desenvolvimento de competências socioemocionais no ambiente escolar pode fazer com que jovens que são testemunhas de humilhações contra determinados estudantes se tornem defensoras das vítimas. “Diferentes competências socioemocionais, como respeito e empatia, podem ajudar nisso”, explicou.

Já os agressores que cometem o bullying precisam desenvolver a empatia, para entender que “o que eles estão fazendo pode ter extremas consequências e que a vítima está sendo machucada”. Além disso, devem desenvolver tolerância à frustração, uma vez que, segundo o pesquisador, não saber lidar com isso pode ser um dos fatores que levam à realização de violência contra os outros.

Quanto às vítimas, John avalia que elas devem aprender a “colocar para fora que estão se sentindo mal com a situação” e desenvolver iniciativa social. Afinal, ao estarem conectadas com outras crianças, a possibilidade de ter pessoas que a defendam é maior, aponta o pesquisador.

Socioemocional de professores

Na palestra “Apoiando as competências socioemocionais de professores”, De Fruyt abordou questões sobre o desenvolvimento pleno dos docentes e a relação disso com o trabalho junto aos estudantes. Segundo o especialista em avaliação de personalidade no campo da Psicologia, características dos professores explicitadas de forma indireta na escola, como empatia, acolhimento e incentivo ao pensamento, têm impacto no desempenho dos alunos.

“Temos de desenvolver competências dos estudantes, mas também temos de desenvolvê-las em nós mesmos […] Professores são um exemplo para os alunos e professores com competências socioemocionais melhor desenvolvidas podem estar melhor preparados para os desafios diários do trabalho e para implementar programas de desenvolvimento de competências socioemocionais com mais eficiência”, disse.

Ele destacou que o Instituto Ayrton Senna está desenvolvendo um projeto sobre o assunto, e que a iniciativa já levantou qualidades pedagógicas e competências socioemocionais passíveis de serem bem desenvolvidas para atuações ainda mais eficientes dos docentes nas escolas. São algumas delas: gestão de aula; entusiasmo; comunicação assertiva; humor; autorreflexão; engajamento com os outros; amabilidade; manejo de emoções negativas e mente aberta.

“Vocês [professores brasileiros] já vêm fazendo esse tipo de trabalho implicitamente por um longo tempo. A única coisa que queremos fazer é dar um vocabulário e um modelo metodológico para vocês fazerem isso ainda melhor”, disse, convidando os docentes presentes a responderem um questionário sobre suas emoções por meio do site http://senna.labape.com.br/a/TSEMS_Piloto_2018.

Ao final de sua fala, De Fruyt fez uma ressalva importante: ‘’Nós temos de valorizar a carreira docente e investir na formação de professores. Do contrário, não tem como desenvolverem tranquilamente qualidades pedagógicas e competências socioemocionais”.

Diálogos Socioemocionais

Desde o início de 2017, o Diálogos Socioemocionais impacta cerca de 340 mil estudantes ao ser implementada em 620 escolas estaduais cearenses que trabalham com o Projeto Professor Diretor de Turma. A implementação é parte da promoção de uma política pública de educação integral na rede. A versão do Diálogos Socioemocionais que funciona na região é voltada a redes públicas de ensino que garantem em seus currículos disciplinas que trabalham especifica e diretamente o desenvolvimento de competências socioemocionais.
De maneira geral, o objetivo do Diálogos Socioemocionais é possibilitar, de forma intencional e planejada, o desenvolvimento pleno de estudantes do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio, preparando esses jovens para enfrentar os desafios da vida no século 21.

Trata-se de uma proposta composta por:

1) formações de gestores e professores realizadas presencialmente e a distância para entendimento, customização e implementação na escola;

2) instrumentos e metodologias para o acompanhamento do desenvolvimento de competências socioemocionais pelos professores junto aos estudantes, por meio de conversas e devolutivas que permitem o planejamento e o replanejamento de atividades para o alcance de objetivos individuais dos alunos;

3) instrumentos e metodologias para o acompanhamento do andamento da política educacional pela Secretaria de Educação;

4) uma comunidade de prática, por meio da qual os docentes compartilham e comentam atividades criadas por eles para potencializar o desenvolvimento de competências socioemocionais nas aulas.