publicado em 17.07.2015 ÀS 12:41

Alunos de escola pública do Rio de Janeiro conquistam reconhecimento

17 de julho de 2015

Ganhar medalha em uma competição internacional de matemática, com questões complexas exigindo raciocínio lógico e resolução de problemas desafiadores em inglês já seria motivo de orgulho para qualquer estudante do Ensino Médio. Para um grupo de alunos do Colégio Estadual Chico Anysio (CECA), no Rio de Janeiro, a conquista significa também o reconhecimento de que um trabalho diferenciado na sala de aula de uma escola pública pode ampliar oportunidades na vida.

Em abril deste ano, cerca de 50 alunos do colégio se inscreveram para participar da Olimpíada Internacional de Matemática Sem Fronteiras (MSF), uma seção brasileira do evento de mesmo nome organizado na França. Três grupos fizeram a prova ‐ um de cada ano do Ensino Médio ‐ e como resultado a escola ganhou uma medalha de bronze e uma menção honrosa. Entre todos os colégios estaduais do Rio de Janeiro, apenas dois receberam esses resultados, ao lado de escolas tradicionais e também particulares.

"Antes de estudar no CECA, aula de matemática para mim era só um professor passando fórmula no quadro para aluno decorar. Aqui, aprendemos tudo de outra forma, com outra dinâmica e desafios que nos fazem querer entender cada problema para solucionar, é uma nova visão sobre a matemática e sobre o estudo", contou Lucien Gilbert, de 16 anos. "O que conquistamos aqui representa que a proposta do colégio está criando algo diferente em nós, que vai nos ajudar em muitas situações que ainda vamos viver", disse o estudante, que integrou a equipe do 2º ano do Ensino Médio, vencedora da medalha de bronze.

Segundo ele, como a inscrição foi feita dois dias antes da Olimpíada não houve tempo para fazer uma preparação específica, ainda assim os estudantes encararam o desafio porque souberam que o formato da prova era diferente: as questões seriam menos de conteúdo e mais de raciocínio, e deveriam ser respondidas em equipe.

Esse também foi o principal motivo para a diretora do grupo Mathema, Kátia Smole, sugerir aos professores de matemática do CECA que inscrevessem os alunos. Kátia é integrante do grupo de especialistas que participam do trabalho do Instituto Ayrton Senna no desenvolvimento das propostas pedagógicas do colégio junto à Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro.

"Eu recebi um email do organizador da Olimpíada e gostei do formato, achei que tinha muita relação com a proposta do CECA, em especial por ser em times, com problemas diferentes e voltados ao raciocínio lógico", contou. "As questões da prova não são óbvias e envolvem várias áreas da matemática, com problemas de estratégia que exigem, além de conhecimento, capacidade de análise, gestão de informação e tomada de decisão em conjunto."

INOVA�?�?O NA METODOLOGIA
A participação na Olimpíada MSF foi, portanto, uma oportunidade de conferir o resultado das atividades que já são realizadas comumente na escola, segundo Kátia. "Sem menosprezar o conteúdo da disciplina, buscamos uma mudança da metodologia de ensino para que, além dos conceitos, o aluno aprenda a mobilizar os conhecimentos, usá‐los para tomar decisões e resolver problemas. Temos apostado que o desenvolvimento do raciocínio matemático ocorre quando os alunos podem se deparar com situações inéditas", explicou a especialista.

Isso acontece com o ensino integrado que articula conteúdo e desenvolvimento de competências. Por exemplo: o currículo mínimo de matemática do Rio de Janeiro prevê o ensino de funções. No CECA, os alunos aprendem o conceito e também trabalham com software e jogos para analisar regularidades de situações ligadas ao conceito, levantar hipóteses para solucionar questões com habilidades de comunicação e argumentação.

"Além disso, é muito importante a alta expectativa dos professores sobre o desempenho dos alunos em matemática também. Essa crença faz toda a diferença na qualidade da aula, faz com que os alunos avancem pelo esforço próprio e porque sabem que o professor acredita neles", defendeu Kátia. "Com isso, temos visto que os alunos vão deixando para trás histórias de fracasso ou desinteresse pela disciplina e ficam muito envolvidos para construir outro caminho em relação à matemática."

Para uma das professoras de matemática do colégio, Denise Oliveira, é possível fazer essa mudança no dia a dia da escola. "Não é fácil acabar com o mito de que os alunos não "são bons" em matemática, mas quando trabalhamos de forma efetiva com o pensamento matemático e problematização, o jovem descobre que tem lógica e que é capaz", disse. "É preciso acabar com a ideia de que o professor é dono do saber, e levar o aluno a avaliar as informações, buscar o que ainda não conhece de forma consistente para conseguir solucionar um desafio. Jovens desafiados com certeza nos surpreendem e também passam a acreditar que podem aprender", relatou a professora.

Segundo o estudante Lucien, a experiência com a Olimpíada MSF foi uma mostra de todo esse trabalho. "No início não ficamos muito otimistas, porque estava bem difícil, mas achamos que tinha sido uma experiência desafiadora, por isso já valeu", lembrou. "Quando saiu a medalha, vimos que estamos preparados com as aulas que vão além dos números. Sinto orgulho por fazer parte dessa conquista, que é do colégio todo", afirmou.

COMPETI�?�?O
Criada em 1990 pela Academia de Estrasburgo, na França, a Mathématiques sans Frontières tem o objetivo de estimular o interesse dos estudantes para a disciplina, e é organizada como a maior competição educacional interclasses do mundo, com participação de mais de 200 mil estudantes em 29 países e 10 idiomas para alunos do 4º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio.

Desde 2011, a competição é realizada também no Brasil ‐ além de países como Estados Unidos e Alemanha. Neste ano, mais de 24 mil estudantes de escolas públicas e privadas de todo o país participaram, e das 460 escolas inscritas, 168 foram premiadas: 61 classes receberam medalhas de ouro, 134 ficaram com prata, 220 com bronze e 97 classes receberam menção honrosa. Todas as escolas que receberam medalhas são convidadas a participar, na �?ndia, da Quanta ‐ Competição Internacional de Ciências, Matemática, Habilidades Mentais e Eletrônica.

COLÉGIO ESTADUAL CHICO ANYSIO

O Colégio Estadual Chico Anysio (CECA) funciona como o principal piloto para as inovações da Solução Educacional para o Ensino Médio. Resultado de uma parceria iniciada em 2012 entre a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC) e o Instituto Ayrton Senna, a Solução estrutura uma política educacional de referência para o Estado acessível a diferentes modelos escolares.

A proposta é uma iniciativa de educação integral introduzindo novos processos de gestão, formação, acompanhamento e avaliação, que se ancoram em uma proposta curricular inovadora. No CECA, as medidas são implementadas em sua versão mais completa para validação, e os conhecimentos gerados nesse contexto servem de base para a expansão da iniciativa na rede de ensino estadual.

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