Uma das estratégias essenciais para garantir uma alfabetização eficaz é a formação dos atores-chave desse processo: professores alfabetizadores e coordenadores pedagógicos. Esses profissionais, em função do alcance social de seu trabalho, devem ter suas carreiras valorizadas, além de oportunidades de aprofundar seus conhecimentos teóricos, ampliar o domínio de estratégias metodológicas e, principalmente, desenvolver habilidades socioemocionais para superar as mais diversas situações que surgem em sua prática docente.
 

No processo de alfabetização, o professor tem o papel de mediador para estimular nas crianças o gosto por aprender, e pode se valer do conhecimento sobre múltiplas linguagens para auxiliar nesse aprendizado na perspectiva da integração das áreas de conhecimento. 
 

Em princípio, a formação acadêmica inicial do alfabetizador deveria construir um repertório de conhecimentos suficiente e consistente para essa atuação de maneira eficaz.

Ilustração ensino a distância

No entanto, há estudos que apontam a falta de priorização do tema alfabetização nos cursos de formação de professores, apenas uma disciplina teórica entre tantas que ocupam 2.800 horas do total de 3.200 horas distribuídas por quatro anos letivos, em geral. As 300 horas dedicadas ao estágio supervisionado, apesar de serem direcionadas preferencialmente para a docência compartilhada na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, muitas vezes não oferecem esse momento de aproximação com a realidade escolar e as possibilidades de aprendizagem práticas.

 

Dessa forma podemos dizer que os futuros professores não são preparados, em sua formação inicial, para assumirem turmas de alfabetização, uma vez que têm conhecimento teórico de métodos, mas lhes falta repertório prático e, em grande parte, também conhecimentos sobre os avanços da Neurociência e da importância das competências socioemocionais para o desenvolvimento integral de crianças e jovens. E não custa enfatizar o quanto a prática do professor é determinante para seu sucesso como alfabetizador.

 

Essa fragilidade na formação do futuro alfabetizador — apontada por muitos pesquisadores como uma lacuna que impacta negativamente na prática docente —, precisa ser considerada e endereçada na formação continuada ou em serviço promovida pelas redes de ensino — e essa é uma das bandeiras do Instituto Ayrton Senna: ampliar a competência dos educadores para o exercício profissional no trabalho pedagógico e na gestão do processo educacional.

 

É muito importante que os sistemas de ensino articulem os processos de formação continuada com sua política educacional, mantendo unidade e direcionamento aos programas e cursos para que, de fato, fortaleçam o conhecimento e o trabalho da equipe docente. O que se espera dos gestores educacionais é um maior entendimento de que as políticas de incentivo ao desenvolvimento profissional docente exigem, primeiramente, a identificação do problema a ser enfrentado pela rede.

 

Uma vez identificado o foco da política, entra em cena o compromisso com as mudanças estruturais que eventualmente venham a ser necessárias, e que requerem vontade política. Muitas redes de ensino canalizam recursos para a formação em serviço ou continuada com foco na prática da alfabetização, mas muitas vezes enfrentam tanto o desafio de garantir acesso universal aos cursos, quanto de atender às diferenças individuais dos profissionais e de suas comunidades, elemento caro ao princípio da equidade.



Aprendendo com quem já faz



Escalando a formação – a experiência do Instituto Ayrton Senna

Conhecido como “Formação em Cascata”, o percurso formativo da proposta de política de alfabetização, que o instituto Ayrton Senna implementa em algumas de suas parcerias, inicia-se com a capacitação presencial de coordenadores pedagógicos e equipes de formadores das secretarias de Educação, que por sua vez tornam-se multiplicadores do conhecimento (apropriação de conceitos, metodologias, práticas e gestão) junto aos professores alfabetizadores das redes de ensino.

 

O processo de planejamento das formações segue um sistema bem organizado e articulado, com definição de modalidades, cronogramas, carga horária e logística para abranger todos os profissionais das escolas da rede de ensino que serão os multiplicadores das formações. No início do ano letivo, a primeira formação de educadores aborda pressupostos e dinâmicas da proposta, incluindo o conceito de educação integral, o trabalho com competências socioemocionais e questões práticas de gestão da aprendizagem, do ensino, da rotina escola e da política educacional.

 

No decorrer do ano letivo, a formação continuada de educadores e o fortalecimento das lideranças acontecem por meio de estratégias específicas:

 

Secretaria de Educação – implementação do Comitê Gestor, que funciona como um fórum mensal de governança para diferentes áreas da secretaria da Educação, com maior presença das diretorias pedagógica e de gestão, além do secretário e assessores. O objetivo é analisar resultados e estabelecer ajustes para atingir as metas dos indicadores de acompanhamento da alfabetização.

 

Escola – a formação em serviço dos gestores escolares é efetivada por visitas regulares às escolas por profissionais das secretarias de Educação, que analisam alguns indicadores de acompanhamento da aprendizagem e de processos para identificar ameaças e adotar medidas de intervenção para superá-las. Ao longo do ano, a formação continuada contempla também uma série de encontros presenciais para reflexões e estudos sobre temas atuais de educação.

 

Sala de aula – além da primeira formação no início do projeto, os professores alfabetizadores são acompanhados ao longo do ano pelos coordenadores pedagógicos para o trabalho com a proposta de alfabetização, que inclui cadernos formativos, orientações de atividades e estratégias didáticas.

Caderno de atividades para desenvolver competências socioemocionais

Comunidade de práticas – como estratégia formativa, outro recurso disponibilizado aos educadores é uma plataforma online, intermediada por especialistas de diferentes linguagens, que tiram dúvidas de práticas pedagógicas e disponibilizam materiais para estudos e reflexões sobre como criar e manter um ambiente alfabetizador em sala de aula.

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A experiência de Sobral/CE

O município de Sobral/CE lidera o ranking de melhor Ideb 2017 do Brasil (9,1 contra média de 5,5 do Brasil) e apresenta os melhores índices de alfabetização nos anos iniciais do Ensino Fundamental (83% de alunos do 3º ano do Ensino Fundamental proficientes em leitura contra 45% da média Brasil – ANA 2016). Esses resultados foram construídos ao longo do tempo,
em um processo que aliou fortalecimento da gestão escolar e de ações pedagógicas com foco, principalmente, na alfabetização. O Instituto Ayrton Senna começou uma parceria com Sobral em 1997, quando levou para a rede municipal programas de correção de fluxo e uma cultura de gestão que deram a base para outras iniciativas do próprio município, tornando-o um exemplo em educação.

 

Em 2001, a prefeitura implementou um programa de formação em serviço que culminou com a criação da Escola de Formação Permanente do Magistério.

 

Aspectos da política educacional que influenciaram os resultados em Sobral, segundo um estudo do Centro de Políticas Públicas do Insper:

Ilustração Insper


Formação continuada da equipe alfabetizadora



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Para que os professores alfabetizadores avancem significativamente no desenvolvimento profissional, é preciso intensificar a análise crítica das práticas docentes e seu impacto no aprendizado dos alunos. A partir dessa reflexão, é importante investir, dentro do processo de formação continuada, na recuperação de conteúdos e habilidades básicas que não chegaram a ser desenvolvidas pelo corpo docente durante sua formação inicial, bem como na atualização de estratégias que darão suporte para enfrentar desafios do processo ensino-aprendizagem.

 

Isso inclui conhecer metodologias inovadoras e informações científicas sobre o funcionamento do cérebro durante a leitura, proporcionadas pelos novos estudos das neurociências, assim como sobre o desenvolvimento de competências socioemocionais, que comprovadamente são tão importantes para a obtenção de bons resultados na escola quanto as habilidades cognitivas.

 

O coordenador pedagógico será aquele que contribui com a busca e seleção de estratégias e metodologias eficazes para o desenvolvimento do trabalho de alfabetização na escola, refletindo e socializando com os professores com vistas à sua incorporação ao projeto político pedagógico da escola e à prática dos alfabetizadores.

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Cabe ao coordenador pedagógico o protagonismo desse processo, o que implica em:

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• Fazer a gestão do processo de ensino e aprendizagem da escola.

• Oferecer condições para que os professores trabalhem coletivamente as propostas curriculares, em função de sua realidade, compartilhando conhecimento, trocando experiências e encontrando soluções para as dificuldades levantadas.

• Apoiar a equipe escolar no planejamento e na execução de atividades que exploram as possibilidades da interdisciplinaridade e das múltiplas linguagens com foco na aquisição e desenvolvimento de habilidades para o domínio da Língua Portuguesa e da Matemática.

• Estimular o pensamento crítico, a abertura ao novo, a criatividade/inovação como condições fundamentais para que a escola se constitua não apenas em ambiente de concretização do currículo, mas também como espaço aberto às mudanças curriculares necessárias e desejadas pelos professores, para cumprirem seus objetivos educacionais.

• Contribuir com a organização das rotinas pedagógicas, de acordo com os pressupostos teórico-metodológicos adotados e às necessidades de ensino e aprendizagem da escola. A observação em sala de aula é uma das estratégias que mais fornece dados para a atuação do coordenador na formação dos professores.

O plano de formação continuada em serviço terá maior chance de sucesso quando:

• O planejamento do ensino e a abordagem metodológica estiverem em sintonia com as necessidades de aprendizagem dos alunos, identificadas por meio de diagnóstico do nível de alfabetização aplicado no início do ano letivo.

• O desempenho de cada aluno for sistematicamente acompanhado ao longo de todo o ano letivo, seja por meio das tarefas realizadas em casa, seja pela participação nos trabalhos em sala de aula e, o que é importante, sejam feitos registros das observações em instrumentos de monitoramento que devem orientar as intervenções mais adequadas às dificuldades identificadas.

• O conteúdo a ser abordado na formação estiver alinhado ao conceito e à proposta de alfabetização prescrita no currículo escolar, e espelhar a orientação da BNCC no tocante à educação integral e aos conteúdos e habilidades afeitas à alfabetização.



O professor alfabetizador



A atuação do professor alfabetizador tem um impacto direto na aprendizagem e no desempenho dos alunos, e a depender de como desenvolve seu trabalho, pode prejudicar a autoestima das crianças ou fazer com que ela acredite em seu potencial, o que contribui para a aprendizagem. O perfil do alfabetizador pede alguém com sensibilidade e discernimento para identificar dificuldades de aprendizagem, compreender as reações socioemocionais e refletir sobre o que fazer.

 

Portanto, é fundamental que a secretaria da Educação, em sua política de alfabetização, estabeleça normas para que as turmas dos primeiros anos do Ensino Fundamental tenham docentes cujo perfil inclua experiências de sucesso como alfabetizadores. Mais importante ainda é criar condições para que haja uma espécie de profissionalização da alfabetização, de forma a permitir a manutenção do professor alfabetizador nas unidades escolares e nos quadros da secretaria da Educação, como uma equipe cada vez mais permanente, preparada técnica e emocionalmente para encontrar caminhos alternativos focados na demanda da rede.

 

No processo de seleção de um professor alfabetizador, é possível considerar aspectos importantes para o estabelecimento de um trabalho de qualidade, tanto em relação a habilidades socioemocionais como no que se refere a aspectos de didática, planejamento, ambiente de aprendizagem e profissionalismo. Veja exemplos desses aspectos a seguir:

Competências técnicas

 

  • Experiência de dois anos, no mínimo, como docente em classes do Ciclo de Alfabetização

  • Participação em cursos de alfabetização sobre teorias, métodos e metodologias afins

  • Conhecimento sobre os avanços da ciência no tema alfabetização

  • Habilidades de gestão da sala de aula: planejamento que se valha das diversas áreas do conhecimento como vias para a alfabetização, observação e registro do desempenho dos alunos, utilização de estratégias de ensino diversas que possam atender às diferenças individuais dos alunos

  • Comunicação fluente, verbal e escrita

  • Flexibilidade para atendimento às diferenças individuais dos alunos

Competências socioemocionais

 

  • Acreditar que todo aluno pode ser alfabetizado

  • Gostar de trabalhar com crianças na fase de alfabetização

  • Querer conhecer novas propostas e possibilidades de trabalho, ou seja, não ter medo do novo 

  • Ser observador para captar o avanço e a dificuldade do aluno 

  • Ser organizado 

  • Ser comprometido (pontual e frequente)

  • Ser criativo para superar imprevistos 

  • Gostar de ler e escrever 

  • Ter bom relacionamento com os diversos atores do processo de aprendizagem (trabalhar em equipe) 

  • Ser dinâmico, criativo e questionador

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