Compreender o princípio alfabético significa reconhecer que existem relações entre as letras escritas (ou grupos de letras) e os sons da fala (os fonemas), ou seja, reconhecer que as letras que aparecem ordenadas na composição das palavras escritas representam uma sequência de fonemas na palavra falada. O aluno compreende que alterações nas letras provocam alterações na leitura das palavras.

O conhecimento da relação entre os sons e suas representações, isto é, as letras ou grupos de letras, torna possível estabelecer generalizações que permitem a leitura e a escrita de qualquer palavra, de acordo com as regras da ortografia da língua.

Não é a memorização de cada palavra isolada que está em jogo, mas sim a capacidade de generalização das regras implícitas no sistema ortográfico. São regras que se manifestam na escrita de cada palavra, na escolha de cada letra e na combinação entre elas. Mas como todo esse aprendizado da leitura acontece no cérebro das crianças?

Quando falamos da compreensão de como o cérebro aprende a ler, o nome do neurocientista francês Stanislas Dehaene é uma referência. Professor do Collège de France e diretor da Unidade de Neuroimagem Cognitiva do Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale, ele atua em diversas linhas de pesquisa, em especial as bases neurais da leitura.

Em seu livro “Os neurônios da Leitura”¹, Dehaene traça uma teoria da leitura à luz da neurociência, descrevendo como as redes de neurônios aprendem a ler, como os circuitos corticais se adaptaram para a leitura e quais mecanismos promovem a leitura com fluência. As novas tecnologias de imagem, como as ressonâncias magnéticas permitem a visualização das regiões cerebrais ativadas quando deciframos as palavras.

“Em todos os indivíduos, em todas as culturas do mundo, a mesma região cerebral, com diferenças mínimas de milímetros, intervém para decodificar as palavras escritas. Seja a leitura em francês ou chinês, a aprendizagem da leitura percorre sempre um circuito idêntico”, diz ele.

 

¹ Dehaene, Stanislas. Os neurônios da leitura : como a ciência explica a nossa capacidade de ler / Stanislas Dehaene ; tradução: Leonor Scliar-Cabral. – Porto Alegre : Penso, 2012.

Acesse aqui para um resumo desse livro no formato de apresentação

 

 

Processos essenciais da leitura
.

Como lemos

Os olhos percorrem o espaço onde se encontra a escrita com movimentos rápidos (4 a 5 vezes por segundo), chamados de SACADAS. Identificamos de 10 a 12 letras a cada sacada (3 ou 4 à esquerda e 7 ou 8 à direita do olhar). Depois disso, há o momento da fixação, quando realmente lemos: a informação visual é desmembrada em milhares de fragmentos pelos neurônios da retina e reconstituída pelo cérebro num formato que restitua a sonoridade (via fonológica) e o sentido das palavras (via lexical). As informações sobre a pronúncia das palavras são ativadas automaticamente dentro do cérebro, formando uma “imagem acústica”. É como se o leitor ouvisse sua própria voz dentro dele.

O tempo de percepção de uma letra é de 50 milissegundos, e a leitura de um “bom leitor” chega à velocidade de 400 a 500 palavras por minuto.

Extraído de: Os neurônios da leitura, Stanislas Dehaene, 2012.

.

 

Cada vez que nosso olhar pausa, não conseguimos identificar senão uma ou duas palavras. Apenas o centro da retina, chamado de FÓVEA, tem uma resolução suficiente para permitir o reconhecimento de letras pequenas.

.

15% do campo visual é que dá a leitura

Campo visual
.

Conhecer os processos cerebrais da leitura é importante para desenvolver métodos de ensino mais eficazes para a alfabetização das crianças.

A neurociência também elucidou que as funções executivas (habilidades cognitivas, como memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva, usadas para controlar nossos pensamentos, nossas emoções e nossas ações) são recrutadas para responder de modo adaptativo a situações novas e são a base para muitas competências cognitivas e socioemocionais.

Na alfabetização, as funções executivas são importantes, por exemplo, para associar que aquele desenho/letra corresponde a um determinado som, que aqueles fonemas/sons estão associados àquele grafema/letra e juntos forma palavras, e até para compreender textos mais complexos.

Essas evidências dão subsídios aos cientistas para análises de comportamentos que podem colaborar ou prejudicar o desenvolvimento da leitura. A neurocientista cognitiva Maryanne Wolf, diretora do Centro de Dislexia, Aprendizagem Diversa e Justiça Social da Universidade da Califórnia em Los Angeles/EUA, defende que o hábito de ler em celulares e tablets pode alterar o modo como nós processamos a informação que lemos. Segundo ela, hábitos digitais favorecem uma leitura pouco aprofundada, principalmente entre os jovens, em que os olhos passam rápido por textos e postagens diversas, o que pode contribuir para a diminuição da habilidade de entender argumentos complexos, de fazer análises críticas e até mesmo criar empatia para opiniões diferentes das nossas.

Ela dá algumas dicas para lidar esses problemas em relação a crianças e adolescentes:

1)    Evitar o “multitasking”. Apesar de aumentar a capacidade de atenção para lidar com várias coisas ao mesmo tempo, algo bem exigido no mundo atual, o hábito cria dependência por constantes estímulos e desestimula a memória.

2)    Aproveitar o tempo ocioso das crianças com atividades criativas e lúdicas longe das telas.

3)    Ler livros para as crianças desde o nascimento. O hábito estimula conexões neurais, a atenção recíproca e a experiência tátil dos livros.

4)    Buscar equilíbrio para o tempo de uso de celulares ou tablets. Cientistas não recomendam mais de duas horas diárias para crianças pequenas.

5)    Explorar o uso de outras linguagens, como artes, música, corporal, que colaboram para o desenvolvimento de competências socioemocionais.

A Rede Nacional de Ciências para a Educação, que tem apoio do Instituto Ayrton Senna, reúne mais de cem grupos de pesquisas em todo o país, voltados a diferentes áreas do conhecimento e especialidades, com interesse em realizar pesquisas que promovam melhores práticas e políticas educacionais. Um dos enfoques de trabalho dos pesquisadores da rede é a alfabetização, tema inclusive debatido em diversos artigos e vídeos disponíveis no site da rede.

O vídeo “Existe idade certa para alfabetizar?”, por exemplo, agrega depoimentos de diversos especialistas para uma abordagem multidisciplinar sobre essa discussão.

 

SAIBA MAIS

Como o cérebro aprende a ler Prof. Stanislas Dehaene (vídeo legendado de palestra realizada no World Innovation Summit for Education, 2017/18:28 min)

Ler: um ato de revolução cerebral, entrevista com Stanislas Dehaene.

O cérebro no mundo digital: os desafios da leitura na nossa era, Maryanne Wolf, ed. Contexto, 2018.

Vídeo com Rochele Paz Fonseca, professora da PUC do Rio Grande do Sul, aprofunda-se no tema das funções executivas e sua relação com a alfabetização integral.

Digite o assunto que deseja pesquisar

Comentar
Mensagem
Comentários