Não há uma única definição para o termo “gestão” que seja universalmente aceita e igualmente compreendida. Geralmente, os conceitos refletem diferentes abordagens e pontos de vista, e podem se destinar a propósitos variados. Nesta realidade múltipla, o Instituto Ayrton Senna adota a seguinte definição:

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Gestão é a articulação de conhecimentos e de recursos humanos, materiais e financeiros com foco em resultados.

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É uma definição aparentemente simples, mas que reúne aspectos importantes e fundamentais para toda e qualquer ação que tenha como objetivo realizar uma gestão eficiente e em prol do desenvolvimento humano.

 

Para realizar esta articulação, todo gestor precisa construir um processo que contemple as seguintes ações:

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No campo educacional, o conceito de gestão comporta, necessariamente, duas dimensões (a dos sistemas/redes/Secretarias e a da escola) e quatro âmbitos (aprendizagem, ensino, rotina escolar e política educacional). Daí a importância de se agregar processos gestores em todos os âmbitos, isto é, integrar a gestão ao fazer de cada profissional da educação.

 

Na elaboração de uma política de alfabetização, alguns pontos são necessários para a reflexão sobre como construir uma gestão eficiente, em todos os âmbitos:



NA SECRETARIA

  • Unidade conceitual sobre o que vem a ser uma criança alfabetizada: é preciso ter clareza sobre as habilidades previstas para serem desenvolvidas até o final de cada ano do Ciclo de Alfabetização.

  • Equipes formadas por profissionais com competência técnica em alfabetização e atualizada nos avanços da Neurociência com foco na educação, recebendo oportunidades contínuas de novas formações, inclusive em serviço.

  • Instrumentos de avaliação para diagnosticar e acompanhar o processo de alfabetização de todos os estudantes.

  • Reuniões sistemáticas com a presença das equipes para análises situacionais, definições de ações e planejamento da intervenção no campo da alfabetização.

  • Disponibilidade de infraestrutura adequada nas escolas.

  • Calendário escolar com garantia das horas letivas legais. 

NA ESCOLA

  • Proposta pedagógica explícita com o conceito de aluno plenamente alfabetizado.

  • Coordenador pedagógico assíduo e com competência técnica para apoiar os professores alfabetizadores.

  • Equipe de professores com conhecimentos específicos em alfabetização, teóricos e práticos.

  • Reuniões coletivas e sistemáticas dos professores alfabetizadores com a presença do coordenador pedagógico para análise do desenvolvimento dos alunos. 

  • Instrumentos de registro individual da aquisição das competências pelos alunos.

  • Instrumentos de avaliação para aplicação ao longo do ano.

  • Acompanhamento da frequência do professor, inclusive às reuniões pedagógicas.

  • Cumprimento do calendário escolar/horas de aula. 

NA SALA DE AULA

  • Professor com clareza sobre o conceito de aluno alfabetizado na perspectiva da educação integral, para cada um dos anos do Ciclo de Alfabetização.

  • Profissional conhecedor da diversidade de conceitos, teorias de aprendizagem, metodologias e materiais com foco na alfabetização integral.

  • Ambiente alfabetizador com disponibilidade de recursos como livros, jogos etc.

  • Registro da presença e participação do aluno.

  • Aluno e família acolhidos e acreditados.

Em todos esses âmbitos, portanto, o processo gestor é um forte apoio para o alcance da alfabetização integral e de qualidade para todos. São ações de gestão, por exemplo, que identificam a melhor maneira de atender à individualidade das crianças, com suas diversas formas de aprender. Isso acontece porque, apesar de haver um padrão esperado de desenvolvimento para estudantes de cada ano do Ciclo de Alfabetização, não pode haver um único modo de ensinar, e o corpo docente e pedagógico de escolas e secretarias de Educação precisam ter um repertório variado para dar conta dessas diferenças com sucesso.

 

A gestão pode apoiar na identificação das melhores metodologias para atuar na diversidade, inclusive com atividades que exijam outros recursos humanos e horários para além do período escolar, com demandas estruturais.



Como fazer isso: metodologias orientadoras

Quando falamos em diversas formas e tempos de aprender, queremos dizer que é preciso identificar em que nível de alfabetização cada estudante está. Se um professor acompanha cinco crianças que não estão com aprendizado esperado para uma turma, elas devem receber um olhar individualizado. O professor precisa de estratégias para trabalhar tanto em nível coletivo quanto individual de cada grupo, escolhendo diferentes metodologias de trabalho que valorizam os saberes e potencialidades apresentados pelos estudantes e os diferentes ritmos de aprender.

 

O Instituto Ayrton Senna sugere algumas metodologias que estão estruturadas para se articularem com as áreas de conhecimento e levam em consideração os direitos e objetivos de aprendizagem previstos na BNCC para o Ciclo de Alfabetização. A seguir, apresentamos algumas informações básicas sobre essas metodologias, que não são o único caminho para realizar a gestão dos processos de alfabetização, mas podem se tornar aliados importantes daqueles que desejam realizar um trabalho neste sentido.



Diagnóstico da alfabetização



Conhecer o aluno significa reunir informações sobre seu estágio de desenvolvimento e nível de aprendizagem. Somente dessa forma será possível planejar o trabalho pedagógico com foco no desenvolvimento de habilidades que devem ser conquistadas no Ciclo de Alfabetização.

 

É importante ter um “retrato”, logo no início do ano, de como chegam à sala de aula os alunos, em especial do 2º e 3º ano. Para tanto, o Instituto Ayrton Senna recomenda a realização de um teste diagnóstico, tanto em Língua Portuguesa quanto em Matemática, para identificar o nível de alfabetização de cada um dos estudantes.

 

Momentos mensais de registro da evolução das competências esperadas, aplicação de um instrumento formal de avaliação no meio do ano e a reaplicação do teste diagnóstico ao final do ano letivo também são estratégias importantes de uma sistemática de acompanhamento, que possibilite planejar, replanejar, buscar soluções e alternativas para fortalecer a prática pedagógica em sala de aula.

 

Isso pressupõe uma estrutura de planejamento articulada entre Secretaria de Educação, dando apoio aos processos de acompanhamento, e as escolas, garantindo o registro dos indicadores. Cada sistema de ensino, cada escola, cada professor pode adotar uma proposta que mais se adeque à sua realidade, desde que se observe o que se quer avaliar e em que contexto.

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avaliação é uma ferramenta privilegiada para auxiliar tanto a secretaria da Educação em seu plano de ação, quanto os coordenadores pedagógicos e professores na elaboração do planejamento das aulas, a partir do nível de alfabetização em que os estudantes se encontram. É importante destacar que sua função é a de diagnosticar o desenvolvimento da aprendizagem para apoiar o processo formativo, e não a de emitir notas ou conceitos para classificar estudantes.



Planejamento e rotina da sala de aula



O planejamento escolar deve levar em conta o desenvolvimento de todos os alunos, com propostas de trabalho que atendam às diferenças de níveis de alfabetização. Quando realizado coletivamente pelos professores, e com apoio do coordenador pedagógico, o planejamento favorece uma discussão sobre quais atividades inovadoras podem ser realizadas, quais alunos precisam de que tipo de ajuda, qual a melhor forma de organizar a rotina da aula, dentre outros aspectos.

 

A rotina da sala de aula garante uma previsibilidade quanto à duração de cada momento de estudo e de vivência, facilitando inclusive a participação dos alunos. Como sugestão para o Ciclo de Alfabetização, o primeiro momento é a acolhida, quando o professor recebe com entusiasmo seus alunos, compartilha com os estudantes a agenda do dia e registra propostas de atividades que serão realizadas ao longo do período; a roda de leitura é outro momento importante, quando todos os alunos escolhem um texto para ler, com apoio do professor para aqueles que ainda não dominam a leitura, em seguida compartilhando impressões sobre o que foi lido.

 

O planejamento da rotina de aula deve articular a gestão do processo de alfabetização à gestão da classe e se traduz na criação de situações didáticas desafiadoras, incluindo o trabalho com as múltiplas linguagens, assim como de momentos-chave para o trabalho com as competências socioemocionais.

 

Outra estratégia importante da rotina de sala de aula é a tarefa que o professor passa para os alunos fazerem em casa, tanto para motivar a participação da família no aprendizado de seus filhos quanto para desenvolver nas crianças competências como responsabilidade e autonomia. É importante que o professor, ao identificar os diferentes níveis de desenvolvimento dos alunos, planeje as lições de casa por grupos, para que recebam tarefas diferenciadas, de acordo com suas possibilidades ou necessidades.



Agrupamentos flexíveis

Planejar e construir uma rotina para o desenvolvimento de todos os estudantes, no tempo e espaços disponíveis, com propostas de trabalho que atendam às diferenças identificadas, é um desafio. Por isso, o planejamento também deve prever momentos em que os alunos estejam agrupados em tarefas diferentes. 

 

O agrupamento flexível é uma estratégia organizativa e curricular para favorecer um ensino direcionado às necessidades de aprendizagem dos alunos por meio de melhores condições de realização das atividades. A organização do agrupamento deve sempre partir do diagnóstico dos estudantes, seja por meio de aplicação de avaliação ou pela observação diária e criteriosa do professor. 

 

Ao contar com a organização de agrupamentos, o professor pode decidir em quais momentos irá utilizar essa estratégia, ou seja, sua turma não precisa estar dividida em todos os tempos da rotina, nem em todos os dias da semana. Os diferentes momentos com agrupamentos flexíveis podem servir aos objetivos do professor de forma didática. 

 

Por exemplo, com uma mesma atividade para todos os alunos, mas níveis de complexidade diferentes para cada agrupamento, ou momentos em que os trabalhos são diversificados para cada grupo. À medida que a turma avança, e dependendo da atividade, os agrupamentos sofrem alterações. 

 

A metodologia é totalmente compatível com o trabalho cotidiano da escola. Pode ser organizada para uma turma ou para todos os alunos de um mesmo ano. Quer dizer, pode-se identificar alunos com o mesmo nível de dificuldades (exemplo: não escrever alfabeticamente), dentro de cada sala do 2º ou do 3º ano, ou pode-se fazer isso com um grupo formado por todas as turmas do 3º ano, por exemplo, exigindo um trabalho em equipe, coordenado à rotina das salas envolvidas. 

 

Esta estratégia também potencializa a aprendizagem colaborativa pelos alunos, que interagem, trocam informações, discutem, formulam suposições e aprendem. O mesmo pode acontecer entre os professores e equipe pedagógica, que passam a ter oportunidades para planejamento conjunto e compartilhamento de percepções sobre o desenvolvimento dos estudantes. Para ser efetivado na rotina escolar, o trabalho com agrupamentos flexíveis pode se beneficiar da introdução de um professor de apoio e a criação de materiais complementares para atividades integradoras das diversas áreas do conhecimento. 



Presença de professor de apoio

Na busca do equilíbrio necessário entre o desenvolvimento das tarefas coletivas e atenção mais individualizada de acordo com os diferentes ritmos de aprendizagem de cada estudante, a presença de um professor de apoio vem otimizar a rotina da sala de aula, liberando o professor regente para o trabalho com alunos com mais dificuldades. Esse trabalho em parceria permite a construção de itinerários formativos mais para toda a turma, nem desafiador demais para os estudantes que estão em níveis mais iniciais, nem tedioso para aqueles que já avançaram no percurso e na aquisição de habilidades.

 

Para efetivar essa proposta, a rede de ensino pode usar os recursos humanos disponíveis (coordenador pedagógico ou outro professor), ou também fechar parcerias com instituições de ensino superior para contratação de estagiários de licenciaturas ou pedagogia.



Atividades integradoras

É muito importante inserir no planejamento das aulas o uso de atividades integradoras das áreas do conhecimento, como projetos de ensino, sequências didáticas, atividades socioemocionais ou jogos e brincadeiras com objetivos pedagógicos, na medida em que apoiam os alunos em seu processo de alfabetização, mas tendo como base os conhecimentos de todas as áreas. Essas atividades devem ser organizadas a partir de situações-problemas que levem os alunos a avançar, questionando-os e os desafiando.

 

A exploração dessas atividades deve ser contextualizada, ou seja, deixar clara a articulação entre os conhecimentos mobilizados e as demandas concretas da vida dos estudantes. Os encaminhamentos também devem prever a criação de um contexto favorável à aprendizagem de todos, levando em consideração o nível de alfabetização dos estudantes.

 

Esses tipos de atividades têm o mérito de ampliar o desenvolvimento de competências cognitivas e socioemocionais.



Característica do projeto de ensino:

  • Problematização – o projeto deve ser originado em algum problema a ser resolvido ou de uma necessidade ou desejo que, para ser concretizado, demanda engajamento do grupo.

  • Ação – as atividades devem constituir ações que levam a transformações individuais e coletivas.

  • Experiência – os conhecimentos prévios dos alunos devem ser mobilizados para a realização das atividades e para subsidiar as novas aprendizagens.

  • Pesquisa – as etapas da pesquisa podem ser vivenciadas pelos estudantes de forma orientada para a resolução dos problemas.

Características da sequência didática:

  • Ordenação – apresentar etapas, organizadas segundo uma ordem própria: das atividades e conteúdos
    de menor complexidade para aqueles de maior complexidade.

  • Coerência – garantir alinhamento entre os objetivos
    a serem atingidos pelas sequências (os conhecimentos
    e as habilidades a serem desenvolvidos pelos alunos)
    e sua proposta metodológica (as atividades e ações que a compõem).

Flexibilidade - devem ser flexíveis, abertas a ajustes e adequações ao longo de sua efetivação, de maneira que possam atender às necessidades das turmas, dos alunos e dos próprios professores.

Benefícios dos jogos e brincadeiras:

Quando participa de jogos e brincadeiras, o aluno toma decisões, desenvolve a autoconfiança e compreende melhor a importância de regras, de hierarquia e de limites, no trabalho em equipe. Por meio dos jogos a criança conseguirá, progressivamente, coordenar diferentes pontos de vista: o seu, o dos colegas e também o do professor, por meio do desenvolvimento da linguagem que amplia sua capacidade de comunicação e ampliação do conhecimento de si e do mundo.

 

Além disso, os estudantes têm oportunidades para refletir sobre o sistema de escrita, produzir e revisar texto, considerando a situação comunicativa definida, e ampliar suas estratégias de contagem e de cálculos. Ao jogar, eles precisam buscar formas de resolução dos problemas, descartando as que não se adequam à situação, além de estabelecer relações, argumentar e validar seus conhecimentos.

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