publicado em 29.10.2020 ÀS 14:07

Linguagens, letramentos e alfabetização: Tudo junto e misturado!

Por Shirley Ferrari

Ao tratarmos de aquisição de leitura e escrita, muitos são os encontros e confrontos com que nos deparamos na multiplicidade de conceitos: alfabetização e letramento, múltiplas linguagens, multiletramentos, alfabetização inicial com foco nos fonemas ou em textos...enfim, um universo de discussões teóricas e práticas!  

Aprender a ler e escrever não é tarefa simples! Tem uma complexidade que não imaginamos quando já somos letrados. A coordenação motora fina e a capacidade de abstração são alguns dos processos cognitivos desenvolvidos desde cedo e implicados na condição de bom leitor e escritor. No processo de alfabetização nos apropriamos de uma linguagem (a escrita) que muda nossa forma de pensar, ver e sentir o mundo a nossa volta e essa prática nos identifica como sujeito participante de uma vida social que se comunica, se exprime e se emociona utilizando recursos visuais. 

E tudo isso começa na oralidade: é ouvindo o mundo desde que nasce, a partir dos textos orais, que a criança prepara em “seu equipamento neurológico” suas matrizes textuais como elementos de memória para receber, por exemplo, os textos literários. Isso indica que a oralidade, a leitura e a escrita estão amalgamadas desde o início pela criança na aprendizagem da língua e na aquisição da leitura e da escrita.

Tal relação coloca em cheque muitas afirmações sobre a necessidade de um grande trabalho com letras e sons e pouco trabalho com histórias no início da alfabetização. Se o trabalho de alfabetização é precedido por um repertório de oralidades vindos das histórias contadas, das brincadeiras com rimas e parlendas desenvolvidas na infância e indicadas no trabalho da educação infantil, como desconsiderar esses recursos no princípio da aquisição da leitura e da escrita nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental? O trabalho com as letras e as palavras podem sim derivar dessas estratégias, porque o fundamental da oralidade está na força expressiva do texto narrado, na função poética das brincadeiras e na capacidade de estruturar a memória onde o alfabeto irá se dinamizar.

A querela entre usar linguagem ou letramento parece então inócua se entendemos a linguagem como uma área de conhecimento, um mecanismo cognitivo que permite ao ser humano aprender e usar sistemas complexos de comunicação na expressão do pensamento.  Parece inócua também se entendermos como um sistema de sinais para codificação e decodificação de informações em áreas como na língua, na matemática, na ciência e no mundo digital, artístico e corporal.

Neste cenário, cresce a preocupação com a inserção de atividades legítimas que entrelacem cada vez mais linguagem e sujeito. Considerada como algo mais que mera comunicação, a linguagem é constitutiva do sujeito – que é social – e, por isso, relaciona-se intrinsecamente à perspectiva de letramento no seu sentido amplo, de viés social e político.

A fim de termos uma escola que abra possibilidades para os sujeitos se tornarem leitores e escritores proficientes, é necessário que ela crie novas formas de sistematização de conhecimento, com efetiva circulação de cultura e ciência, de forma que se pratique a linguagem em contextos relevantes para o universo dos alunos. Esta é uma proposta não para o aluno aprender a ler e a escrever a fim de se adaptar à sociedade, mas para entendê-la e lidar com situações adversas de forma mais consciente.

Mostrar e vivenciar formas de interagir com o mundo nas mais variadas situações discursivas, produzindo e compreendendo enunciados, deve ser um de nossos objetivos. Privilegiar um trabalho procedimental com a linguagem, em detrimento de um ensino normativo é, então, nossa tarefa.

    

Shirley é mestra e doutora em psicologia da Educação e pós doutoranda em Ciência da Leitura na PUC/SP. É também especialista do time de Design do Instituto Ayrton Senna. *