publicado em 14.05.2018 ÀS 10:51

Formação de professores é tema de debate sobre impactos da Base Nacional no Brasil

Atualizar o perfil de modelos de formação de professores de modo a conectar as instituições formadoras à realidade das escolas é um passo essencial para poder consolidar mudanças curriculares no País. Esta foi uma das abordagens compartilhadas por especialistas nacionais e internacionais durante o “Ciclo de Debates em Gestão Educacional: A Formação de Professores no Contexto da BNCC”, que foi realizado em São Paulo por meio de parceria entre o Itaú Social e o Instituto Ayrton Senna, nesta terça-feira (8).

O evento reuniu um público de cerca de 500 pessoas, entre educadores, gestores, pesquisadores e membros de organizações do terceiro setor para buscar identificar aspectos essenciais envolvidos na formação inicial e continuada de professores que precisam ser considerados para a implementação efetiva da BNCC (Base Nacional Comum Curricular). Promulgada pelo governo federal no final de 2017, a BNCC é o documento de referência que irá orientar a elaboração dos currículos de escolas e redes de ensino em todo o País.

“Escolhemos como tema a formação docente porque esse é um eixo estratégico habilitador para qualquer melhoria na educação desse país. Para que o potencial desse caminho se concretize, no entanto, precisamos refletir sobre como a formação dos profissionais deve acontecer na prática, questionar se qualquer tipo de formação poderá trazer os mesmos resultados”, afirmou a Superintendente da Fundação Itaú Social, Ângela Dannemann, durante abertura do evento.

“O texto da Base inclui a importância das competências, que também chamamos de socioemocionais, mostrando a relevância do tema. Agora, mais do que nunca, precisamos construir itinerários formativos e apoiar o professor a desenvolver essas competências de forma intencional, deliberada e planejada no conjunto de seu trabalho”, disse Viviane Senna, presidente do Instituto Ayrton Senna, destacando que as chamadas competências socioemocionais são um aliado tão importante quanto os aspectos cognitivos para inúmeras realizações na vida das pessoas, inclusive no desempenho escolar.

Na primeira apresentação do dia, Linda Darling-Hammond, professora de Educação da Universidade de Stanford e presidente do Learning Policy Institute, abordou as intensas mudanças que precisam acontecer quando um País se propõe a redesenhar sua referência curricular, uma vez que não basta escrever um documento para que as transformações ganhem vida, é preciso preparar os professores para isso.

Em sua fala, Linda mencionou o contexto atual em que a educação acontece, e lembrou que, antigamente, havia a ideia de que a escola só precisava passar todo o conhecimento disponível, o aluno decorar e depois “comprovar” em uma prova. Isso não faz sentido mais no mundo de hoje, em que é mais importante que o estudante saiba aprender por si mesmo, usar o conhecimento em diferentes situações, conhecer coisas novas para desenvolver soluções ou criar novas ideias e trabalhar em equipe.

“O conteúdo segue sendo importante, mas junto com o potencial de mobilização que pode ser transferido para várias situações, numa educação que precisa promover um desenvolvimento autêntico do estudante, levando em conta as relações entre emoções e aprendizagem. Isso traz implicações para o currículo e para a preparação dos professores”, defendeu Linda, afirmando que essa é uma educação empoderadora.

Segundo ela, para concretizar uma proposta como essa, o professor precisa, além de dominar seu conteúdo e conhecimentos pedagógicos, saber como seus estudantes aprendem. Isso implica planejar suas aulas para um ensino personalizado e não padronizado, ou seja, aberto a fazer ajustes contínuos no modo de passar o conhecimento e o objeto curricular de acordo com as particularidades de seus estudantes. Por isso, o professor tem que ter ferramentas para moldar o currículo para oferecer mais chance de desenvolvimento aos estudantes. Há diferentes estratégias para isso, mas é possível identificar pontos comuns a alguns programas que têm se mostrado mais efetivos nesse sentido, segundo a pesquisadora.

Entre esses pontos estão, por exemplo, a criação de comunidades de aprendizagem que apoiem tanto o aspecto acadêmico quanto socioemocional, ações planejadas para vincular o aprendizado à prática, e experimentação das mesmas estratégias de aprendizado que serão usadas na sala de aula. “O contexto nos mostra que é importante mudar o paradigma do modelo de formação, de algo passivo, padronizado e sem relação com a sala de aula ou com os estudantes, para propostas ativas, colaborativas, que usem modelos diversificados, coaching, feedbacks e reflexões, de forma sustentada ao longo do tempo”, afirmou Linda, que ainda destacou que os professores precisam ter condições de trabalho coerentes com o que se exige deles, como salário, tempo para planejamento e formas de valorização de sua atuação.

MODELOS DE FORMAÇÃO

Sobre essa mudança no paradigma dos modelos de formação de professores, o evento reuniu contribuições tanto de Linda quanto de outras duas palestrantes do primeiro eixo do evento, a pesquisadora Elba Siqueira, da Fundação Carlos Chagas (FCC), e Jana Barros, coordenadora pedagógica das classes de EJA (Educação de Jovens e Adultos) na rede de Seabra (BA), destacaram a necessidade de aproximação entre as instituições formadoras de professores e as escolas da educação básica.

Para Linda, é por meio da aproximação com a realidade das escolas que as instituições formadoras poderão inovar no preparo dos professores. Isso passa por realizar trabalhos de pesquisa que envolvam tanto os profissionais da academia quanto da equipe escolar, com o mesmo papel, além de permitir ao professor em formação vivenciar na prática experiências daquilo que está aprendendo, ao mesmo tempo em que educadores das escolas possam contar com mentores especialistas ao seu lado no dia a dia e que a universidade possa conhecer práticas poderosas que as escolas já desenvolveram para solucionar seus problemas reais.

Após recuperar um balanço histórico sobre iniciativas nacionais de formação continuada que já trataram de referenciais curriculares no Brasil, Elba Siqueira convidou o público a não esquecer a experiência acumulada em 20 anos. Segundo ela, muitos programas de formação realizados nesse período em todas as esferas (municípios, Estados e União) apresentaram concepções variadas, com experiências centradas na escola, iniciativas elaboradas pelos próprios professores, entre outros aspectos que podem trazer importantes aprendizagens e servir como ponto de partida para avanços necessários.

“Já vimos, por exemplo, que não adianta formar o professor se ele chega à escola e não tem apoio para implementar as inovações que aprendeu, portanto é preciso investir também no papel de gestores e no ambiente que propicie a continuidade do que se propõe na formação”, destacou a pesquisadora. Segundo ela, a efetividade da formação depende do envolvimento de quem está no contexto local, e os estudantes de licenciatura precisam ter contato com as escolas, entender os problemas reais e saber como os fundamentos teóricos podem contribuir para a prática. “Já tem ocorrido alguma aproximação nesse sentido, mas não pode ser uma prática isolada, é mais interessante quando as redes estabelecem essa relação com as universidades de forma sistemática”, disse.

Ao abordar como os gestores escolares e coordenadores estão se envolvendo nessa questão, de forma a tornar possível a implementação doa BNCC, Jana Barros também compartilhou o ponto de vista de quem está diariamente nas escolas. “Implementar uma Base não é algo fácil, não podemos agir como se fosse, e precisamos conhecer bem as escolas para reconhecer quais oportunidades elas têm para o trabalho com aquilo que o documento propõe. Não estamos todos já prontos para implementar uma BNCC, precisamos nos constituir como implementadores e precisamos ter a oportunidade para isso”, defendeu.

SEQUÊNCIA DO DEBATE

Na parte da tarde, o Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação) apresentou o documento produzido pelo Grupo de Trabalho voltado à formação de professores, formado por 27 técnicos representados pelos 26 estados brasileiros mais o Distrito Federal. As propostas do Grupo foram compartilhadas e estão disponíveis no site do Consed, como sugestões para a implementação da BNCC.

O tema também recebeu contribuições de três especialistas internacionais: Oliver John, pesquisador do edulab21 do Instituto Ayrton Senna/Universidade de Berkeley, realizou uma análise sobre a inserção do tema das competências gerais no documento nacional, Anneli Rautiainen, head de inovação da Agência Nacional de Educação da Finlândia, e Chor Boon Goh, gerente-geral do NIE Internacional, braço de consultoria oficial do Instituto Nacional de Educação de Singapura relataram os principais aspectos envolvidos em experiências similares de construção de currículo em seus países e seus desdobramentos em formação. Acompanhe nosso canal de notícias para ter mais informações sobre essas apresentações em breve.

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