4 pontos que podem colaborar na construção de referenciais curriculares

Agregar a dimensão cognitiva à socioemocional, como constituintes do processo de ensinar e aprender, surge como o caminho para a concretização das novas diretrizes curriculares nas salas de aula.



A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aprovada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) no final de 2017, tende a ser um forte impulsionador de novas políticas públicas em educação com foco no desenvolvimento pleno das pessoas e na perspectiva da equidade para todos os alunos brasileiros, ainda que possa haver alguns desafios para isso.


Prevista para ser efetivada até 2020, sua implementação demandará um esforço coletivo de educadores e gestores para o alinhamento nacional de seus currículos escolares, diante do caráter normativo da BNCC em substituição aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs).


Para que chegue à sala de aula, Estados e municípios devem utilizar essas diretrizes na (re) elaboração da proposta curricular de suas redes de ensino e se adaptar aos novos conceitos propostos na base, principalmente os que tratam do desenvolvimento no âmbito pedagógico, que materializa a Educação Integral em um currículo por competências.


Na BNCC, competência é definida como “a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho”.


Ter um currículo orientado por competências não é algo novo, já que constava nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs). A novidade da BNCC é considerar as diferentes necessidades e características dos alunos sob a ótica da Educação Integral, agregando a dimensão cognitiva à socioemocional como constituintes do processo de ensinar e aprender.


As 10 competências gerais previstas na introdução do documento indicam de forma ampla quais seriam as competências desejadas para que os estudantes brasileiros possam responder aos desafios da sociedade contemporânea. Sendo assim, se a escola quiser ser protagonista em promover mais qualidade e equidade na aprendizagem dos seus alunos, precisa aprender a lidar com esses processos em ambas as dimensões.


Ao planejar a primeira elaboração curricular, ou fazer uma atualização do currículo alinhada à BNCC, as redes de ensino precisam definir algumas diretrizes que apontem o caminho a seguir: os princípios norteadores, as metodologias, os processos de avaliação, se a abordagem será disciplinar ou interdisciplinar, quais estratégias que irão contemplar as diversidades locais, entre muitas outras.


A Educação Integral tem que responder às necessidades de desenvolvimento dos estudantes de cada rede, de maneira contextualizada, no caso da BNCC, 60% do conteúdo ensinado nas escolas devem seguir a base. Cada escola deve considerar a sua realidade, a situação em que se encontra para confrontá-la com o que deseja e com aquilo que precisa para construir um processo dinâmico e contínuo de reflexão.


Definindo as competências por área de conhecimento e disciplinas, recomendamos quatro mensagens chave que podem colaborar para a construção desses referenciais curriculares. Veja a seguir!



1. Imprimir a concepção de Educação Integral no texto introdutório


Esse item deve explicitar a visão de Educação Integral que responda às necessidades de aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes de forma contextualizada à rede de ensino, sempre entendendo que Educação Integral vai além do tempo integral, se referindo às dimensões cognitivas e socioemocionais a serem desenvolvidas com os estudantes de maneira articulada.

É preciso deixar claro duas posições fundamentais para o desenvolvimento integral dos alunos:

  • O que eles devem “saber” — considerando a constituição de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores;
  • O que devem “saber fazer” — considerando a mobilização desses conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho.


2. Definir qual visão de criança, jovem e adolescente que se quer formar


O referencial curricular deve apresentar uma concepção da imagem de estudante da Educação Básica que se leva em consideração, a partir das singularidades e formações identitárias e culturais próprias de cada região. É importante que se coloque de forma explícita quem são esses estudantes, em que posição o currículo pretende considerá-los no processo de aprendizagem, como propõe se relacionar com sua diversidade e singularidade, em que medida foram ouvidos e como participaram das escolhas pedagógicas contidas no documento curricular.

De forma geral, a BNCC já abre caminho para a valorização do estudante em posição ativa na aprendizagem, desde a educação infantil:

“ESSA CONCEPÇÃO DE CRIANÇA COMO SER QUE OBSERVA, QUESTIONA, LEVANTA HIPÓTESES, CONCLUI, FAZ JULGAMENTOS E ASSIMILA VALORES E QUE CONSTRÓI CONHECIMENTOS E SE APROPRIA DO CONHECIMENTO SISTEMATIZADO POR MEIO DA AÇÃO E NAS INTERAÇÕES COM O MUNDO FÍSICO E SOCIAL.” BNCC P. 36



3. Estabelecer o nível de aspiração do currículo para o sucesso 
do estudante por meio de uma matriz de competências

A comunicação sobre qual visão de estudante a rede de ensino pretende formar pode ser estabelecida por meio de uma matriz de competências. Uma matriz de competências é um conjunto derivado das 10 competências gerais da BNCC que comunica, de forma visual e objetiva, quais habilidades os estudantes devem desenvolver para ter sucesso para ter sucesso ao longo de suas vidas em um mundo cada vez mais complexo. 


Essa matriz deve trazer de forma combinada as dimensões cognitivas e socioemocionais para serem trabalhadas nas áreas de conhecimento e disciplinas. Ou seja, os estudantes irão aprender Matemática – ou qualquer outra disciplina – e ao mesmo tempo, estarão desenvolvendo competências de colaboração, resolução de problemas, persistência ou curiosidade para aprender.


Evidências científicas têm mostrado que trabalhar essas competências em sala de aula, em diversos contextos e desde a mais tenra idade, impacta no desenvolvimento das crianças e jovens, tendo influência positiva na permanência do aluno na escola, na diminuição de ocorrências de violência na comunidade, e em uma série de outras conquistas e realizações ao longo da vida.


Para construção da matriz de competências, também sugerimos que a secretaria de Educação trabalhe três aspectos:

 

  • Considerar as evidências científicas que associam impactos de determinadas competências socioemocionais para a aprendizagem e para realizações na vida;
  • Incluir as aspirações da própria rede de ensino (é possível valorizar competências que, mesmo com menos evidências de impacto, sejam tidas como importantes pela rede), e isso implica em realizar escutas que incluam redatores de currículo, as equipes, os estudantes, os empregadores, a sociedade em geral, porque as aspirações refletem o que a comunidade espera das novas gerações;


Considerar a experiência de quem já construiu currículos com esse enfoque, identificando recorrências e aquilo que costuma aparecer em outros documentos com a mesma intencionalidade (algo que pode dar segurança para a tomada de decisão sobre o que priorizar).



4. Adotar metodologias de ensino que apoiem a
concretização do currículo em sala de aula


Em nossa experiência de 24 anos trabalhando em conjunto com redes de ensino, temos visto que algumas metodologias podem agregar potência ao desenvolvimento de competências pelos alunos: educação por projetos, aprendizagem colaborativa, multiletramentos, problematização, ensino híbrido (o termo entendido como formas de utilizar o tempo para além da escola, a sala de aula invertida, não necessariamente com recursos tecnológico, embora também possam ser utilizados), entre outras.


De modo geral, é importante que sejam metodologias ativas, que coloquem o estudante em situação de experiências que proporcionem sentido ao que está sendo aprendido. Enquanto mediador do conhecimento, o professor deve ter presença pedagógica para essa interlocução, desde que haja disposição interior, abertura, sensibilidade e compromisso para tanto.


É importante que essas propostas se desdobrem nas áreas de conhecimento. No caso do trabalho com competências socioemocionais, não significa traduzi-las como conteúdo de aula, mas sim incluir orientações aos professores para concretizar essas competências de forma vinculada às competências específicas das áreas e suas habilidades.

 

Outras dimensões da implementação da BNCC

É importante considerar as implicações da elaboração do currículo para outras dimensões da implementação da BNCC, como a gestão escolar, formação continuada de professores, revisão de projetos pedagógicos e de materiais didáticos, avaliação e acompanhamento da aprendizagem, dentre outras.


Isso significa que precisamos de uma cadeia de condições para o currículo induzir um modelo de escola, uma série de adaptações para a organização escolar que possibilite aquilo que o currículo propõe. Assim, para que a potência inovadora da BNCC se concretize nos currículos e nas escolas, é preciso unir esforços por um modelo escolar propício em um plano de implementação articulado. Reunir os conhecimentos que já vêm sendo produzidos, tanto pelos próprios professores no cotidiano das escolas, quanto por pesquisadores e especialistas de diversas áreas da ciência – educação, psicologia, economia e muitas outras — podem auxiliar a encontrar as práticas mais eficientes para atingir esses objetivos.



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